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Expointer propõe mudanças na língua portuguesa

A mais importante feira agropecuária do sul do país foi muito mais propositiva do que suas edições anteriores. Após os ovinocultores terem vaiado Lula porque este estaria atrapalhando os negócios na última sexta-feira, os pecuaristas gaúchos paçaram a utilizar o “Ç” (Cê-cedilha) de forma indiscriminada e sistemática.

Vejam o que fez a TVE gaúcha, ao anunciar uma transmição no Jornal do Comércio (não, não é montagem):

Nossa reportagem foi hoje à tarde na Expointer e qual não foi noça çurpresa ao ver a adesão imediata à nova ortografia pecuarista:

Estamos muito felizes com o çuçeço iniçial da nova ortografia. Este blog já aderiu. E voçê? Adira logo, é çençaçional!

Com informações e imagens de Fernando Guimarães.

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Telemann: Concerto para flauta doce, flauta transversa e cordas, TWV 52

Pura covardia. Sou apaixonado pelo grupo italiano Il Giardino Armonico e pelo grande George Philipp Telemann, o mais longevo e popular compositor da época de Johann Sebastian Bach, de quem era amigo. Este concerto, que ouço desde minha infância, me pegou primeiro pelo Presto final, que é aquilo que os compositores alemães da época entendiam por cigano. Ele começa no segundo vídeo aos 3min28. Depois, vi que todo ele era música da mais alta categoria. O corte final do concerto é um tanto brusco, mas ele está completo. O líder do Giardino, Giovanni Antonini, é o cara da flauta doce.

Movimentos: Largo, Allegro (no primeiro vídeo), Largo e Presto.


Ou, se a imagem insistir em não aparecer.


Ou, se a imagem insistir em não aparecer.

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Porque hoje é sábado, Irène Jacob

Após dois anos, sete meses e sete dias, este blog chegará (ou já chegou) a 1.000.000 de acessos.

Resolvi comemorá-los com Irène Jacob, este belo ser que…

… anda meio desaparecida de nossas retinas. Não sei o que anda fazendo, …

… nem se está revoltada com sua desaparição. Mas há coisas que a gente jamais esquece, …

coisas como A Dupla Vida de Véronique, filme de Kieslowski onde a conheci.

Foi inesquecível. Vi-a mais vezes, mas a primeira surpresa foi a que se gravou com maior força.

Introvertida e estranha para o padrão de deslumbramento do star system, …

… Irène recusa convites americanos para seguir fazendo ….

… filmes franceses de baixo orçamento. Pouco fez nos States.

(Imaginem que ela recusou o papel principal de Proposta Indecente, …

… que acabou no colo da anabolizada Demi Moore).

Nascida em 1966, aparece em alguns filmes sob o nome de Iren Zhakob, o que …

… parece ser apenas uma brincadeira.

Elegante e reservada, …

… bela e misteriosa, …

… Irène é a mulher do milhão.

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As incríveis legendas chinesas para “A Vida dos Outros”

Muito legal a forma de integração das legendas em chinês ao filme A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen), tremendo filme de Florian Henckel von Donnersmarck. Em vez de deixar a tradução fora da imagem, no local onde ficam escritos os diálogos, o chineses escolheram integrar a tradução daquilo que aparece escrito na imagem a ela própria. Num primeiro momento, eu não notei a alteração; a coisa só ficou clara com a imagem do livro. É uma cena inesquecível do livro que precede a leitura da dedicatória e a afirmação “Não, é para mim mesmo”. Vontade de rever tudo… Baita filme.

Fonte: ChinaSMACK.

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Os Duelistas, de Joseph Conrad (e, secundariamente, de Ridley Scott)

Os Duelistas é uma novela escrita em 1908, mas parece ter sido criada para o cinema. É uma narrativa visual, toda ela imagem, ação e… , bem, honra. Ou será que a culpa desta notável novela me sugerir o cinema é de Ridley Scott? Pois, em 1977, Scott filmou a história com inigualáveis requintes visuais e grandes atuações de Keith Carradine e Harvey Keitel. Cada cena parece um quadro e as imagens vistas nos anos 70 me perseguiram durante toda a leitura.

O plot é o mais simples do mundo. Na França de Napoleão, no início do século XIX, os militares Féraud (Keitel) e D`Hubert (Carradine) envolvem-se numa disputa por uma ninharia que logo se transforma em animosidade. Eles duelam imediatamente — o que era proibido a oficiais franceses em tempos de guerra — , mas o primeiro duelo não acaba em morte e a honra não fica lavada. Então, duelam novamente e novamente, sempre de forma insatisfatória, até que… , bem, não devo contar o final. Conrad é um mestre. Assim como mal explica o motivo inicial da querela, ele, com sucesso, faz de tudo para que os leitores esqueçam o pouco que  disse sobre o início do ciclo de violência. Apesar da curiosidade de outros personagens, não retorna nunca ao tema e nem os duelistas o fazem. O motivo é simples: não interessa. O que importa é manter a honra. As cenas que Conrad cria para os duelos inconclusos são inteiramente críveis. A novelinha, também conhecida pelo título The Point of Honor, é uma joia.

D`Hubert é um estrategista que parece cada vez mais enfadado com os duelos sucessivos, apesar de se atirar a eles com todo o empenho — sempre a honra, a loucura. Seu adversário, Féraud, é um brutamontes cujo único interesse na vida parece ser o de reencontrar D`Hubert. A iniciativa é sempre dele. Eles pertencem a regimentos diferentes do mesmo exército e por vezes se cruzam nas batalhas. São cinco ou seis embates num período de quinze anos, tendo como pano de fundo as batalhas napoleônicas e sua derrocada final.

O absurdo, a irreflexão, a obsessão desmedida, o sentimento de “vazio” que a vida oferece sem uma boa confusão poucas vezes foram demonstrados com tamanha força. Indico ambos: o pocket da L&PM (só R$ 12,00 !!!) e o filme homônino, disponível em DVD.

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Paixão Côrtes é o patrono da Feira do Livro de Porto Alegre de 2010

Ser patrono da Feira do Livro pode ser humilhante. Lembro da cara constrangida de Charles Kiefer, em 2008, de braços dados com Yeda Crusius e Mônica Leal. Aquele foi o alto preço cobrado pela vaidade. Lembro da cara “tô nem aí” de meu colega de daltonismo Carlos Urbim no ano passado. Já o folclorista Paixão Côrtes sempre militou na grande imprensa e receberá quaisquer companhias com naturalidade. Estive na cerimônia de escolha do novo patrono. Paixão fez um belo discurso desculpando-se pela idade (83 anos) e pelo marca-passo que o tornará um patrono comedido. Paixão é um Ariano Suassuna low profile. É menos talentoso e bem menos caudilho que seu colega nordestino, pois há um lado positivo em quem não consegue pontificar de forma tão completa.

Hoje li críticas à Feira de Porto Alegre. Seria apenas uma grande  livraria comercial. E há alguma que não seja comercial, mesmo dentre as simpáticas pequenas livrarias? Mas concordo com uma das críticas: há um fato que torna a de Porto Alegre e todas as Feiras — incluindo a Bienal de São Paulo e a Feira bonairense — iguais: são imensas e enjoativas livrarias com mais ou menos os mesmos livros. Mas há que saber usar o evento. Há uma interessante programação paralela que é gratuita e que apenas quem não se interessa por cultura pode ignorar. Em razão disso, ainda dou vivas à Feira de Porto Alegre.

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Como ser eleito Deputado Federal com grande votação

A história do diabo é a história do progresso.

Flusser

Se você é de um partido decente, esta é a grande chance de sua vida. Uma aposentadoria vitalícia, benesses, diárias, bom salário, assessores, distância do Grêmio, o ideal. O que é um partido decente? Ora, PT, PSTU e PSol. O resto não. Não me venham com PV e sua candidata freirinha, pois de religião estou cheio e se trata exatamente disso.

Você não vai gastar nada, mas quando lhe derem “aqueles 10 segundos” a coisa tem que render como metro quadrado de shopping.

Você dirá o que segue:

Sou Milton Ribeiro e sou ateu. Sou favorável ao aborto livre coberto pelo INSS e não vejo a maconha como algo pior do que o cigarro. Vote no homem, no mito, no Milton Ribeiro.

Está na hora da gente contrapor aos deputados católicos e evangélicos — que são o mesmo — uma bancada ateia. Mas sou contra as religiões e  inclusive contra o ateísmo militante, tão próximo da religião. A gente precisa ser superior aos grupinhos e só aparecer na hora do bota pra capar. Afinal, a Dilma já disse que aborto é coisa para o Congresso, não para ela. Concordo.

Os ateus são pessoas que são sustentadas por um conceito real que os apoia. Eles são numerosos e transitam normalmente na mesma faixa, não cada um em faixa própria. Existe os grandes filhos da puta, claro — há aquele blogueiro cujas iniciais são “as mesmas de seu blog menos 1″ (por exemplo, o blog é BS e o nome AR, entendem?) — mas posso garantir que o número de FDPs religiosos é muito, muito maior.

Por motivos profissionais, tenho assistido a propaganda eleitoral. Insuportável. Nada, ninguém se distingue, nem o Tiririca, que apenas faz humor voluntário. Bem, enquanto você não se candidata com o discurso que cunhei exclusivamente para você, deixo algumas instruções para o ato sagrado (céus, que bobagem) do voto:

Não votar em:

– quem mistura religião com política;
– quem parece ou é pastor;
– quem é conservador ou de direita (não me digam que direita e esquerda não existem mais, por favor);
– quem criminaliza sistematicamente os movimentos sociais (MST, povos indígenas, etc.);
– quem é criacionista;
– quem é homofóbico;
– quem é sexista;
– quem, gratuitamente, fala mal da América Latina;
– quem usa a frase “meu antecessor ou quem está lá não fez nada”, pois certamente fez e pode ter sido péssimo.

Porém, se você for de direita, seja verdadeiro e abrace o PP ou o DEM, OK? Não me venha com sucedâneos.

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Capas de discos que não precisamos ouvir…

Roubado do blog português O homem que sabia demasiado. A antepenúltima maravilha nos chegou através do Biajoni, a penúltima pelo Branco Leone e a última pelo amigo Marcelo Herbert.

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A chuva antes de cair, de Jonathan Coe

O mundo gira e gira e vai lentamente mudando, porém uma das coisas que não se altera é a importância da literatura inglesa. Se hoje temos Martin Amis e Ian McEwan na lista de maiores autores contemporâneos, é melhor acrescentar mais um nome: Jonathan Coe.  O autor — nascido em Birmingham no não tão longínquo ano de 1961, na gloriosa data de 19 de agosto — escreveu nove romances, além das biografias de James Stewart e de Humphrey Bogart. Coe também exerce o mais do que glorioso ofício de crítico de música erudita.

É surpreendente que o taciturno autor de A chuva antes de cair tenha desenvolvido seu doutorado sobre o impagável Tom Jones de Henry Fielding, que já tenha recebido prêmios como autor satírico, que tenha sido membro de uma banda e que a música seja um aspecto central em suas obras, pois nada disso ocorre neste romance.

A chuva antes de cair, quinto e excelente romance de Coe publicado no Brasil, tem alguma música e nenhum riso, mas é perfeito e realista como poucos. Estou chegando ao final da minha vida e por razões que, espero, ficarão claras para você, sinto ter uma obrigação contigo… O que eu quero que você tenha, Imogen, acima de tudo, é uma noção da tua própria história…, são as palavras de Rosamond ao iniciar a gravação de uma série de quatro fitas cassete destinadas à neta de uma prima: Imogen. A protagonista descreve, uma a uma, 20 fotos, que são a base para esclarecer os principais fatos da biografia da neta.

Quando do início da trama, Rosamond acaba de falecer e, como uma das herdeiras, a sobrinha Gill fica encarregada de encontrar Imogen a fim de repassar-lhe sua parte da herança; porém, ao visitar a casa de Rosamond para buscar qualquer coisa, ela encontra algo mais — quatro caixas de fitas cassetes numeradas junto a um montinho de fotos com um bilhete: “Gill, são para Imogen. Se não conseguir encontrá-la, ouça-as você mesma”.

O que se ouve nas fitas é descrição de cada uma das fotos acompanhadas das circunstâncias em que foram tiradas. Elas servem como atalhos para que o autor não necessite construir elos entre cada cena. O artifício é bom não apenas por este motivo, mas pelo fato de que a descrição de cada uma das fotos — com seus rostos, felicidade, esgares ou indiferença — pavimenta um caminho em linha direta com a vida interior de cada personagem. Este livro de som (audição da fitas) e imagem (fotos)  é escrito tranquilamente em tom melancólico e inexorável; é uma narrativa fluente que vai pouco a pouco preenchendo as lacunas da curiosidade do leitor, mas deixando o melhor para o final.

O tema principal do livro é a disputa, o ciúme, o ódio e a indiferença existentes nas relações entre as mães e filhas do romance. Parece haver uma tragédia transmissível de uma para outra. Na verdade, Coe brinca com a experiência do leitor, pois conseguimos prever o que irá ocorrer e o motivo, só não adivinhamos como. Prova de que há relações que carregam em si germes de conflitos prontos a estourar quando da ocorrência de problemas ou descontrole. Talvez este jogo com o leitor seja o maior mérito deste notável romance.

Coe chamou seu livro de “um bocado experimental”, expressão com a qual não concordo. O livro é consistente, excelente mesmo, mas não é nada experimental. Aliás, o experimentalismo parece ter sido varrido da boa ficção nos últimos anos. Não sei se diria que os escritores atuais escrevem para um público do passado ou ao menos passadista, posso apenas dizer que o trio de ingleses citados constroem romances clássicos a ponto de, aceitas as regras do “bem escrever”, não trabalharem novos recursos de linguagem. Mas como são bons!

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Please, please me, de e com Paul McCartney

O Luis Nassif sugeriu: “Homens e mulheres acima de cinquenta anos, preparem um lencinho para não terem que enxugar as lágrimas na manga da camisa”. Bem, eu apenas me diverti.


Ou aqui.

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A primeira Missa a gente nunca esquece

A primeira vez que ouvi a Missa em Si Menor, BWV 232, de Johann Sebastian Bach foi na interpretação de Karl Richter (1926-1981) e da Orquestra Bach de Munique. Hoje, após a revolução das interpretações com instrumentos originais, é uma gravação de valor apenas histórico, mas mesmo assim, é ABSOLUTAMENTE IRRESISTÍVEL para mim e, se não vou às lágrimas, é porque o supergo segura a barra.

Abaixo, o Cum Sancto Spiritu, trecho central da maior obra musical já escrita em todos os tempos — não, exagero nenhum, estou ultrabem acompanhado nesta opinião.


Se não aparecer a imagem, clique aqui.

E agora, o belíssimo e estranhamente melódico — em obra tão contrapontística — Agnus Dei lá quase do final.


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Divagando sobre Tchékhov e sobre a mais narrada das mortes

A morte de Tchékhov no balneário de Badenweiler é uma das mais recontadas da historia da literatura. Parece haver enorme sedução na cena do escritor moribundo, sua mulher, seu médico, o estudante que chegou para ajudar e a garrafa de champanhe. Quem pediu a bebida? O médico ou Tchékhov? A sedução é tanta que o grande Raymond Carver escreveu um conto, Três rosas amarelas, no qual narra a cena, só que cheia de detalhes inventadíssimos. Talvez isso tenha nascido da narrativa de Olga Knipper, atriz e mulher do escritor. Em seu relato, a cena é contada com tanto, mas tanto romantismo que não parece verdadeira. Para piorar, o russo era um escritor que se caracterizava pela falta de artifício e de idealização dos personagens, pilares de um modelo de escrita totalmente ignorados por Olga em seu texto.

Tchékhov, neto de um escravo que comprou sua liberdade, acabou homem rico, mas seus textos parecem os de um sujeito nascido para a pobreza. Foi filho de um dono de armazém, terceiro de seis filhos, chefe de família — cuidava dos irmãos com especial cuidado –, estudou medicina, exerceu-a, parou de praticá-la para ganhar a vida escrevendo, apesar de nunca ter se sentido parte do mundo literário.

Tchékhov, segundo Tolstói, que não é exatamente uma besta para descrever pessoas, seria um homem “doce como uma mulher” e é crível que tenha dito em seu leito de morte que “fazia muito tempo tempo que não bebia champanhe” e mais crível ainda é que o médico o tenha servido, pois sabia da morte inevitável e, bem, estávamos em 1904. O detalhe do último suspiro e do voo da rolha… Mas voltemos a Tchékhov.

Os personagens de Tchékhov são cheios de boas intenções sobrecarregadas de estupidez, inatividade e finalidade. Tchekhov é moderno em sua concisão, pouca adjetivação e principalmente na recusa em explicar o mundo. Confrontado com as idéias de Tolstoi — o qual em seus textos parece ter resolvido todos os impasses da humanidade — , Tchékhov era um apresentador de realidades complexas e insolúveis que habitam uma dentro da outra. Também defendia, uma novidade na época, os efeitos benéficos da ciência e do progresso.

Por que amamos tanto Tchékhov? Por que as pessoas fazem cara de “coisa fofinha” quando falam nele? Isso ocorre porque ele é o fundador do escritor moderno que não julga os personagens, deixando-os falar sua própria língua? Mas isso não se contraporia a uma certa dureza narrativa? E o que transparece da doçura de Tchékhov em seus textos? A pensar.

Escrito a partir da leitura de um artigo de Elvira Lindo no El Pais.

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Preciso explicar?

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O fantasma

Exclusivo!

Gremista bebendo cerveja com o fantasma do rebaixamento.

(Baseado em O Sétimo Selo, de Bergman.)

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Do autoritarismo

Não, o assunto não é futebol. É sobre algo que sempre me fascinou: o comportamento das massas, mesmo no microcosmo de um pequeno grupo em pé numa arquibancada.

O Chivas ganhava o jogo por 1 x 0 e estávamos todos nervosos ou apavorados com a possibilidade, naquele momento bem real, de perdermos a Libertadores para um time inferior. Foi quando meu vizinho acendeu um cigarro de maconha. Nada anormal num estádio de futebol  — o cheiro de maconha é uma das fragrâncias mais comuns nestes locais. Só que de repente um grupo de pessoas começou a berrar desorganizada e histericamente:

– Apaga, apaga, apaga essa merda!

Olhei para trás e vi um grupo de senhores cujos rostos pareciam ter saído de uma foto de milicos das muitas ditaduras que nosso continente viu durante os anos 60 e 70. Tinham as caras cortadas à foice, rostos irritados e seriíssimos como se estivessem apanhando de mexicanos. E se mostravam cada vez mais agressivos:

– Fracassado, viciado, maconheiro, filho da puta, vagabundo, traficante! Apaga esta bosta! Apaga agora, porra!

O fumante a meu lado, de olhos vermelhos certamente em função da derrota parcial de seu time, estava apavorado, sem saber se iam chamar a Brigada Militar ou se ia apanhar ali mesmo. Só que naquele exato momento Rafael Sóbis fez o gol de empate.

Como se tivéssemos ensaiado por horas, todos, mas todos os que estavam em volta e que não tinham sido torturadores no passado, ato contínuo se abraçaram ao maconheiro e passaram a gritar, pulando no mesmo ritmo:

– A-cen-de! A-cen-de! A-cen-de!

Éramos uns 20… Confesso não ter conferido a face dos milicos após a vingança.

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Preconceito de Classe

Tenho um amigo que pensa que o preconceito de classe é tão grave ou mais do que o racial, até por sempre ficar impune. Fico na dúvida quando ele fala isso, mas logo penso naquela assessora do Serra que garantiu que o candidato era apoiado por uma “massa cheirosa” e no resultado desta e de outras ações de “classe superior” do grupo: hoje estão sendo punidos por um desempenho pífio de sua tartaruguinha. Também acabo de pensar nos empresários que foram beneficiados pelo governo Lula mas que não podem de modo algum aprovar o governo de um torneiro mecânico sem formação universitária, mesmo que ele tenha garantido estabilidade e maior consumo. Trata-se de puro preconceito de classe.

Célia Ribeiro, em sua coluna dominical no caderno Donna de Zero Hora, publicou, em 22/08, um texto que passa ao largo de suas habituais considerações inofensivas sobre elegância e etiqueta, invadindo com duas patas o terreno mal-cheiroso do preconceito de classe. Destaco um trecho da coluna:

Dia desses, entrei no banheiro de um shopping, por volta das três horas da tarde. Todas as pias da bancada de mármore estavam ocupadas por funcionárias das lojas que escovavam os dentes com o maior esmero, diante do espelho, formando espuma da pasta dental na boca. Havia mais duas senhoras à espera para lavar as mãos, mas nada levou aquelas vendedoras a acelerar sua higiene bucal (bom senso seria os shoppings oferecerem aos seus funcionários banheiros privativos para deixá-los mais à vontade).

Se isso não ocorre, que elas escovem os dentes no banheiro comum, rápida e discretamente, sem ruído, deixando os detalhes para aprimorar na pia de casa, no final do dia. E, cá para nós, não é nada favorecedora a imagem de um rosto no espelho, com as bochechas infladas pelo vaivém da escova.

Achei que Célia foi pra lá de infeliz. Ela deveria, no máximo, dirigir sua crítica exclusivamente à administração dos shoppings e não qualificar as mulheres escovadoras de “funcionárias” e as mulheres esperadoras de “senhoras”. Todas são mulheres, provavelmente trabalhadoras. Simples assim, minha cara colunista. O tom da crítica, com descrições de bochechas infladas e baba saindo pela é muito preconceituoso. Queria ler Célia dizendo o mesmo de uma senhora…

Estranho, lembro agora de que uma ou duas vezes fui atingido por suspiros impacientes por ter resolvido lavar o rosto num shopping. Tenho a pele oleosa e penso que às vezes sou um sebo ambulante. O pessoal não gosta e nesse caso nãop se trata de preconceito de classe.

Portanto, fica aqui uma pergunta para Célia Ribeiro: devo lavar o rosto num banheiro de shopping ou apenas fazer os números 1 e 2 e lavar as mãos, hein?

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“O Sétimo Selo”: Bergman usa o cinema para reflexão

André Setaro
Publicado originalmente no Terra

Ingmar Bergman (14/07/1918 – 30/07/2007), um dos maiores pensadores do cinema, morreu há três anos, com 89 anos de idade completados poucas semanas antes de seu passamento. A coluna lembra o genial cineasta através de seu belo “O sétimo selo”.

Não apenas um cineasta, mas um autor completo, um pensador que se vale do cinema para refletir suas angústias, suas dúvidas, refletir sobre a condição humana, Ingmar Bergman é um dos maiores realizadores cinematográficos de todos os tempos. Houve uma época, nos idos dos 60 e 70, que o seu nome despertava imensa curiosidade e, por causa dela, formou-se um verdadeiro culto ao diretor, que alguns chamaram de bergmania. Se na primeira fase de sua carreira não conheceu o sucesso nas bilheterias, considerado pelos exibidores um cineasta maldito, a partir dos meados dos anos 60 um mercado se abriu para suas obras. Principalmente na sua “fase psicanalítica” – “Cenas de um Casamento”, “Face a Face”, “Sonata de Outono”… Os filmes de Bergman que mais aprecio, no entanto, exceção se faça a “A Paixão de Ana” (1970), e, também a “O Silêncio”, são aqueles da primeira fase, notadamente “O Sétimo Selo” “Morangos Silvestres”, “A Fonte da Donzela”, “Noites de Circo”, “Mônica e o Desejo”, “Sorrisos de uma Noite de Verão”, “Juventude”, entre outros. No frigir dos ovos, entretanto, posso dizer que admiro a todos os seus filmes.

“O Sétimo Selo”, obra-prima da primeira fase do cineasta, ainda que produzido em 1956, somente em 1976, vinte anos depois de sua realização, foi lançado no Brasil através da distribuidora “Cinema 1″ e, aqui na Bahia, apresentado neste mesmo ano no antigo cine Nazaré da Praça Almeida Couto. Já “Morangos silvestres” obteve estréia ainda na segunda metade do decurso dos 50, conseguindo grande impacto e estupefação na época de seu lançamento Alegoria tragicômica em forma de mistério medieval, com um desenvolvimento livre do imaginário da Idade Média, “O sétimo selo” ( “Det sjunde inseglet”) tem sua fábula estruturada na volta de Antonius Blok (Max Von Sydow) à Suécia após dez anos de luta na cruzada e o jogo que estabelece com a Morte num tabuleiro de xadrez. Antonius e seu lacaio Jons (Gunnar Blornstrand) se dirigem, por uma longa jornada, ao castelo onde moram, e, no caminho, contemplam uma terra arrasada pela peste. Este itinerário de Blok, do erro inicial à Verdade final, é conduzido com extrema maestria por Ingmar Bergman, que se utiliza, aqui, do cinema, como um veículo “filosofante” e reflexivo acerca da condição humana. No percurso, Blok e Jons encontram vários personagens, mas apenas um casal de artistas mambembes se constitui num remanso de paz e tranquilidade, longe da mesquinharia e da hipocrisia dos outros. Blok, entretanto, continua o jogo de xadrez com a Morte (impressionante caracterização de Bengt Ekerot), mas esta, de repente, ganha partida. Vencedora, precisa levar consigo todos os personagens, deixando na vida somente o casal de cômicos (Bibi Andersson e Nils Poppe), o único capaz de desfrutá-la de maneira pacífica e feliz.

“O Sétimo Selo”, antes da consagração definitiva que se daria, um ano depois, em “Morangos silvestres”, já coloca Bergman, no panorama internacional, como um dos grandes cineastas do século XX. Trata-se de um filme, a rigor, gnoseológico em que se estuda a origem e a possibilidade do conhecimento por parte do homem. Por autor, os filmes de Bergman se constituem, na verdade, em variações sobre um mesmo tema. Em todos eles, presentes: a incomunicabilidade dos seres, a angústia do estar-no-mundo, a inevitabilidade e o mistério da morte, os tormentos da relação amorosa… “O sétimo selo” volta às raízes do cinema nórdico de Victor Sjostrom e Mauritz Stiller, à floração sueca, quando a natureza tinha uma forte influência no comportamento das personagens. Assim, “Det sjunde inseglet” pertence à série de filmes que Bergman realizou e que possuem um “decór” histórico, ainda que o fato de a ação localizada na Idade Média não tira a esta obra magistral seu caráter contemporâneo. O homem que Bergman estuda é o homem do aqui e do agora.

Veja-se o caso dos dois protagonistas principais, o Cavaleiro e seu lacaio, que formam, a seu modo, um binômio no qual se debate o tema das fontes das possibilidades de conhecimento – não somente o conhecimento de Deus mas de tudo aquilo que escapa à constatação estrita dos sentidos. Elementos de mistérios – a bruxa, a peste, a procissão penitencial.., simbolismos e participações insólitas, como a personagem da Morte, criam, em “O sétimo selo”, um clima tenso ao qual contribuem uma planificação e uma iluminação ( do artista Gunnar Fischer antes de Bergman trabalhar com o iluminador Sven Nykvist) cuidadas com esmero.

Em “O Sétimo Selo”, como a afirmar a condição de autor do cinema moderno, Bergman mostra uma constância temática e estilística, um universo ficcional próprio e um estilo – que faz o artista! – pessoalíssimo. À guisa de um pequeno exemplo, que se veja alguns personagens secundários, os quais, vêem se repetindo nos filmes de Bergman de filme a filme: o casal dos artistas ambulantes (presentes desde Noites de Circo até O Rosto”; a controvérsia estabelecida entre o ferreiro e sua mulher – contraponto e complemento. Nas palavras do ensaista Claude Beylie (no indispensável “As obras-primas do cinema, Martins Fontes): “A mensagem é clara. Continuamos ameaçados pela peste, que se chama, hoje, guerra nuclear, e, diante deste perigo, não há outro recurso além dos corações puros. Bergman opõe ao fanatismo e à intolerância, “O leite da ternura humana”. No entanto, seu filme nada tem de dogmático. Ele joga o jogo da ingenuidade iconográfica, desenvolve livremente o imaginário medieval. Faz-nos pensar em Durer, nas xilogravuras de Hans Beham, na “dança macabra” de Orcagna. A reflexão filosófica é irrigada sem cessar por um onirismo límpido e, até, por traços de humor, notadamente através do personagem do escudeiro.”

André Setaro é crítico de cinema e professor de comunicação da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

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A volta do “Ao Mirante, Nelson!”

Logo após Idelber Avelar, temos o retorno de Nelson Moraes à blogosfera. Eram e são meus blogs preferidos. O leiaute do novo Ao Mirante desagrada a este daltônico, mas a verdade é que só me importo mesmo com os textos. Vai para o Google Reader já.

E, para lembrar do cerrado, não esqueçam que Charlles Campos agora tem o seu.

P.S. — Estou absolutamente puto da vida. Cheguei ao trabalho com um monte de coisas para imprimir e a geringonça impressora não sai do offline. Estou louco para reinstalar tudo e perder duas horas enquanto o suporte dorme…

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