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A Mulher do Tenente Francês, de John Fowles (resenha e reconstrução, um show!)

Na Inglaterra, este romance de 1969 possui status de clássico. Quando foi passado para o cinema, recebeu roteiro do respeitadíssimo dramaturgo Harold Pinter (1930-2008), Nobel de Literatura de 2005, e que tem dentre suas maiores influências Samuel Beckett e Frank Kafka. Já John Fowles (1926-2005), o autor do romance, escreveu poucos livros mas tem obra consistente e até popular.

A Mulher do Tenente Francês é excelente. A história é contada a partir de um curioso foco narrativo: o autor, longínquo, examina os atos de seus personagens vitorianos a partir do instrumental em uso nos anos 60, quando o livro foi escrito. Tal instrumental é basicamente freudiano, marxista e gramsciano. Não, não, nada de discursos políticos. Só observações aqui e ali. Ao estilo de Machado de Assis, o autor às vezes conversa conosco, realizando uma bem-humorada interface entre a ação e o leitor. Costuma também brincar com o fato de estar “perdendo o controle” sobre os personagens e, lá pela página 100, explica que está alterando o planejamento inicial do romance por causa dos personagens, que decidiram outra coisa. Para completar, dá ao leitor a chance de escolher entre três finais distintos. É delicioso investimento ler estas 484 páginas.

Considerando-se a estrutura narrativa, não é de estranhar que Harold Pinter tenha sido convidado para escrever o roteiro cinematográfico. Para alegria da Caminhante (just a private joke), o filme de Karel Reisz, com Meryl Streep e Jeremy Irons, é um fiasco quando comparado com o livro. Ela, a Caminhante, acaba de marcar 2 x 0.

Mas tergiverso. No último domingo, procurando algo inteligente na Internet — ainda que zonzo pelo calor insuportável – , encontrei uma divertida série de Digested Classics no Guardian. Então armei uma espécie de jogo. Tenho certa vergonha de contar, mas vamos lá: copiei o texto no Open Office e escrevi minha versão por cima. Não fiz alterações substanciais, mas mexi num monte de detalhes. O tom destes “clássicos recontados” é mais do que jocoso, é decididamente uma profanação e, como meus sete leitores sabem, profanação das especialidades que mais aprecio.

Arriscaria dizer que ri muito do resultado. E, OK, vou dar a fonte por uma questão de honestidade. Por favor, não cliquem nela!

Observando a baía de Lyme, em 1867, podemos notar um casal muito bem vestido caminhando pela praia, se é que podemos chamar de praia aquela bela paisagem cheia de penhascos que acabavam no mar da Cornualha. Estavam tão à vontade longe de casa que não podemos chegar a outra conclusão que não seja a de que estavam noivos ou eram casados. E então ambos viram uma mulher toda de preto olhando o mar.

– Eu espero que você não tenha falado sobre as ideias tolas do Sr. Darwin novamente — criticou Ernestina. – Você sabe que papai não suporta a ideia de ser descendente de um macaco.

Monotemático, certamente Charles falara em novamente em Darwin, assim como hoje falamos sobre o aquecimento global ou as próximas eleições quando temos pouco assunto com nossos sogros. No entanto, a realidade é que Charles não tem nenhum direito a escolher seus temas de conversação, pois ele é uma construção da minha, apenas existe em minha mente, por isso, agora, quero que ele se fixe na mulher de preto que corre perigo na posição em que está.

– Quem é aquela? – , pergunta ele.

– Chamam-na de A Mulher do Tenente Francês – responde Ernestina. – Ela se apaixonou por um capitão náufrago que a abandonou. Ela caiu em desgraça e agora é empregada da Sra. Poulteney.

– Eu não desejaria saber nada dela nem desta história horrível, mas não creio que ela esteja segura naquela ponta. Pode cair e há pedras lá embaixo.

Charles dirigiu-se à mulher de preto e pediu-lhe que saísse daquele local perigoso, mas o olhar triste, frio e profundo que recebeu de volta avisava-lhe para se afastar.

Mas como este é o meu livro, vamos deixar esta cena introdutória e fazer algumas observações sarcásticas sobre ambos os personagens e seus valores vitorianos. Charles Smithson, podemos concluir, é um homem comum, ainda que nobre. Com uma renda que o libera da necessidade de trabalhar, ele é uma alma perdida de 32 anos, com ideias tão avançadas quanto pode ter um homem que deixa-se torturar pelas lembranças de suas ligações com prostitutas.

Sua noiva, Dona Ernestina Freeman, é o que agora nos anos 1960 chamamos de pequeno-burguesa. Seu pai ganha dinheiro no comércio. Ora, o comércio! Ele é o dono de algumas lojas de departamentos em Londres. Coisa estranha, enriqueceu trabalhando. Sua filha, apesar da baixa extração, pode, portanto, casar com Charles, de maior categoria, mas com menos grana. Está tudo perfeito. São dignos um do outro. O único inconveniente é que Ernestina é, como dizemos agora em 2010, uma cabeça oca ou uma loira burra.

Já Sarah Woodruff, ou A Vagabunda do Tenente Francês, como alguns de Lyme Regis a descreveriam… Bem, falemos dela depois. Há também a Sra. Poulteney, uma viúva que tomou Miss Woodruff para si, a fim de protegê-la das maledicências e assim aumentar suas chances de entrar no reino dos céus.

E depois há Sam e Mary. Como o amor dos empregados era mais alegre! E era mesmo. Livres das contorções românticas de seus chefes, Sam e Mary são personagens encantadores. A chefe de Mary é Ernestina e Sam é mordono de Charles. É um contraste bem útil para o romancista, que pode assim, criar uma superfetação de metáforas.

Mudemos o cenário. Muitas páginas depois, estamos em Undercliff, um mundo pré-histórico onde o desocupado Charles procura um fóssil – coisa de vitorianos confusos, apaixonados por Darwin, imaginem! E lá encontra Sarah Woodruff.

– Miss Woodruff –, diz ele.

– Senhor Smithson – , responde ela.

– Eu me preocupo com sua saúde.

– Minha saúde não significa nada.

Nossa! Após alguns minutos de conversa, ela diz que sua situação com o Tenente Francês desaparecido é o que a define como ser humano. Ela é aquilo. Se tivesse nascido 100 anos depois, Charles poderia ter reconhecido isto como uma expressão da angústia existencial sartreana. Porém, vejam como são as coisas, o que ele sentiu foi um desconcertante inchaço nas calças. Então, beijou-a na pálpebra.

Miss Woodruff olhou para toddos os lados.

Se formos vistos juntos, serei expulsa da casa da Sra. Poulteney.

Mais um discurso sobre a ciência vitoriana e hipocrisia religiosa? Mais encontros entre Charles e Sarah até que alguém os veja e cumpra-se a necessidade freudiana de ser expulsa da casa da Sra. Poulteney?

No entanto, damos mais um salto e vamos agora para Exeter, onde Sarah está hospedada no hotel Endicott. Charles vai até ela e aqui tenho um dilema, pois preciso manter o artifício que os meus personagens têm vidas próprias e que não sei como a história termina. Ousadamente, então, abandono-os.

Agora Charles nega a si mesmo a noite com Sarah e retorna a Ernestina, com quem viverá feliz para sempre pelos próximos 173 anos. Mas eu não quero fazer isso. Portanto, faremos com que ele retorne ao hotel, onde dou de cara com Charles desabado sobre o corpo nu de Sarah após 17 segundos de cópula intensa.

– Meu Deus, mas você virgem. Então, o tenente francês não…

– Na verdade não, mas eu precisava do mundo para imaginar que eu tinha para mim, para explorar minha vergonha e solidão.

Se Charles tivesse lido algum livro de psicologia moderna, ele teria concluído que Sarah estava precisando de uma terapia urgente. Mas como isso era 1867, ele simplesmente falou: “Eu te amo”.

Tudo se complica quando o mundo descobre a traição. Sam não entrega uma carta de Charles a Sarah e o mal-começado romance é subitamente extinto. Ela, Sarah, some. Charles é instado a terminar seu noivado, cai em ostracismo light e dorme com prostitutas enquanto cria mais mil metáforas em sua busca por Sarah.

Se eu soubesse que me obrigaria a escrever mais de 100 páginas, poderia ter ficado com o primeiro final. Mas não. Vou deixá-los com mais dois. Afinal, quero dormir com Meryl Streep novamente.

Ele a reencontra dois anos depois, vivendo como modelo de Dante Gabriel Rossetti. Aqui, um choque, pois Dante Gabriel Rossetti é um dos pintores preferidos de minha ex e, portanto, é um idiota. Criador de um grupelho que seus fãs gostam de chamar de pré-rafaelitas, mas que se chama Pre-Raphaelite Brotherhood ou Irmandade pré-rafaelita, é autor de pinturas, poemas e de conceitos que alardeavam a arte pela arte. Seu poema mais importante diz uma imbecilidade digna das maiores carolices “.pps”:

O pior momento para o ateu é quando ele realmente está agradecido e não tem ninguém para agradecer.

Você não precisa se preocupar com isso, Dante, eu organizaria uma festa. Mas voltemos. Ele a reencontra dois anos depois, vivendo como modelo de Dante Gabriel Rossetti.

– Eu não posso me casar com você. Ainda quero estar sozinha. Mas nós temos uma filha — diz Sarah.

Ou.

– Eu vou casar com você, mas será apenas platônico.

Você provavelmente vai escolher o segundo final. Eu fico com o primeiro, em que há sexo casual e variado. De qualquer maneira, Charles e Sarah acabaram pós-modernos.

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Entrevista com Ingo Schulze

Edney Silvestre é um cara esperto. Tentou conduzir as primeiras respostas, mas como Ingo Schulze não foi pelo caminho sugerido, tirou o time e acabou fazendo uma boa entrevista. Ninguém vai acreditar, mas para mim foi uma surpresa ver a participação ativa de meu grande amigo Marcelo Backes na coisa. O final da entrevista… Só na Alemanha, Ingo!

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Comentário de Hélio Paz ao post abaixo

Como já disse, neste blog é comum ocorrer comentários muito superiores ao post. E não pensem que não me orgulho disso. Vai lá, Hélio!

Hélio Sassen Paz
on Feb 8th, 2010 at 10:33 am

Milton,

Por um lado, hei de concordar com o Cláudio Costa, com o autor do texto que tu traduziste neste post e - muito provavelmente - contigo também, pois me parece que essa também é a tua opinião.

Porém, há um outro lado dessa história, que não pode se restringir nem tampouco centralizar discussão sobre a diminuição do tempo, do interesse, do envolvimento e da continuidade da leitura tão-somente no consumismo, na indústria cultural ou na exacerbação dos produtos do veículo televisão: falo do conservadorismo, da falta de investimento, do despreparo e da ignorância da esmagadora maioria dos professores nas escolas de um modo geral (públicas, privadas, ensino fundamental, médio, pobres, ricos, do Moinhos de Vento ou da zona rural de Ji-Paraná/RO).

Ler é algo muito chato quando não se sabe ler direito. Segundo o IBGE, mesmo entre pessoas com nível superior completo (inclusive muitos formados em universidades federais), o analfabetismo funcional chega à assombrosa cifra de 72% da população brasileira.

A leitura também é uma atividade muito chata quando, além de já não saber ler direito, a criatura não é ensinada a contextualizar nenhuma obra (seja ela de ficção ou não) ao momento histórico ou do qual o autor pretende tratar, ou do momento contemporâneo à sua criação e publicação.

A escola é muito chata quando o professor se posta em pé diante de todos e fala sem parar ou fica a escrever na lousa, como diriam nossos amigos d’além-mar.

Se compete pela atenção dos estudantes com a dinâmica imposta pela velocidade da edição dos thrillers de ação, dos videoclipes e de um telejornalismo que não ultrapassa um minuto e meio nas informações mais extensas. Até mesmo seriados e pequenos documentários que, antigamente, eram feitos para preencher uma grade de 1h por 15 min. de intervalo, agora preenchem 30 min. por 8 de intervalo.

A rotina é corrida; a leitura, por sua vez, é parada: o tempo para ler existe. Contudo, a consciência acerca da importância da leitura se esvai quando não existe competência pedagógica para associar a cultura imagética contemporânea a um caminho mais complexo e enriquecedor que somente a leitura pode proporcionar ao indivíduo.

Já assisti a duas palestras do prof. Adriano Duarte Rodrigues da Universidade Nova de Lisboa. Ele defende a tese de que a cultura midiática de um dado momento é resultado da experiência inata. Embora nem a Psicologia e nem a Engenharia Genética tenham ainda podido comprovar essa tese, o fato de lembrarmos da nossa infância; de como nossos pais e avós se referiam às suas respectivas infâncias e de como observamos as de nossos filhos, sobrinhos e, em alguns casos, até mesmo netos, sempre se nota que cada geração tem vindo ao mundo dotada de uma inteligência normalmente bastante superior à de seus antecessores.

Em relação à mídia, Duarte Rodrigues cita alguns exemplos bastante interessantes, que eu adapto ao meu entendimento pra simplificar:

- Minha mãe tem 76 anos. Parou de trabalhar aos 20, para casar-se com meu pai. Ela estudou até a quarta série do então primário. Foi criada por uma tia analfabeta e por um tio que só estudara até o ginásio. A cultura oral da era do rádio era muito mais forte do que a tradição escrita.

Até hoje, mesmo tendo acompanhado a televisão desde o seu início, ela não compreende as “deixas” simbólicas de quando começa, quando termina e quando um programa tem seu intervalo. Meu pai, que era três anos mais velho e era engenheiro de Minas e Metalurgia, também não compreendia essas deixas, por mais tempo que passasse na frente da TV após sua aposentadoria.

Minha irmã de 53, meu irmão de 51, minha irmã de 49 e eu, de 36 anos, todos somos da era da televisão. Todos nascemos com televisão em casa. Rádio, só pra música (basicamente na adolescência) e para futebol (eu) e notícias (meu irmão). Segundo Duarte Rodrigues e segundo minhas lembranças, não foi necessário nenhum manual de instruções para que a nossa geração (embora eu seja de outra) aprendesse a ligar a TV, aumentar e diminuir o volume, mudar de canal ou entender rapidamente quando um programa começa, quando termina, quando entra o intervalo e que seção de um programa começa ou termina quando entra ou sai de cena um determinado comunicador.

Pois hoje temos os nativos digitais. A internet comercial existe desde 1994/1995. Quem nasceu a partir de 1987 pode ser considerado nativo digital: seja rico ou seja pobre; tenha tido seu pai um computador antes de nascer ou passando a conviver com o hipertexto, com o correio eletrônico, com as salas de bate-papo e com veículos mais complexos como blogs, Twitter, etc. somente após começar a frequentar LAN houses, as deixas simbólicas da internet e o ritmo de mudança de um site para outro (ou de uma ferramenta de interação para outra) estão completamente dominadas. Eles não precisam de curso nem de manual de instruções para interagir!

Hoje, a comunicação não é mais matemática. O esquema emissor-receptor-mensagem dos engenheiros da marinha dos EUA Shannon e Weaver está superado. Outro modelo de teoria da Comunicação superado é o da ala marxista da Escola de Frankfurt: ao contrário do que diziam, por mais que tente, a mídia de massa não é o quarto poder, não influencia a todos e não consegue manipular corações e mentes.

Hoje, todos somos INTERAGENTES. O pensamento de um é fruto do pensamento de todos os que ele segue de exemplo e lê ou leu; os caminhos da busca de conhecimento de um jamais são iguais aos de outro, mesmo que tenha a mesma educação, a mesma idade, viva nos mesmos lugares e assim por diante.

Ser interagente significa também dominar rapidamente as técnicas e as ferramentas de produção, edição e publicação de conteúdo. É saber divulgar o seu próprio conteúdo. É ser a mídia de si mesmo para tornar-se mídia dos outros.

A cultura de nicho e a incessante mistura das funções de produtor e de usuário da informação na mesma pessoa e ao mesmo tempo fazem com que seja necessário concentrar esforços na compreensão da ubiquidade, isto é, de que estar em um lugar é estar em todos os lugares ao mesmo tempo.

A TV, o rádio, o jornal, a revista e o livro não são ubíquos, pois dependem de espaços físicos, de grades de programação, de segmentação de público e de um discurso massivo. Porém, quando circulam em um meio digital, podem ser alterados e consumidos por qualquer um a qualquer momento. Ninguém mais quer obedecer a padrões engessados que limitam o acesso e o consumo da informação. O que importa é ter acesso à informação aonde, como e quando o interagente quiser.

O suporte da informação é mais importante do que a informação em si não por causa do consumismo e da tecnofilia mas, sim, por uma questão de acessibilidade: o livro pós-moderno é um arquivo em PDF que permite anotações com a inclusão de áudio, vídeo e links para web sites com informação complementar, acessados pelo leitor ou pelo estudante na hora em que ele quiser e na ordem em que desejar.

Aqui mesmo, no Brasil, há escolas no meio do sertão onde os professores reforçam o conteúdo e o compromisso dos alunos blogando desafios e informações complementares. O estímulo à blogagem faz com que as crianças finalmente voltem a sentir-se estimuladas a ler e a escrever bem. Como cada um visita o blog do outro, emite comentários, acrescenta, corrige e traz novas informações. Como o professor também participa desse processo, ele não é visto como um conhecedor plenipotenciário. Assim, a empatia junto ao mestre aumenta e a turma se integra ainda mais.

Aulas dadas com o auxílio de Wikis, MSN, comunidades no Orkut, etc. tem aumentado o interesse dos alunos pelas matérias e, consequentemente, melhorado o seu desempenho. Lembretes de tarefas ou de novos posts no blog do professor via torpedos SMS e a permanência de todo o conteúdo de aula na web não apenas estimulam o senso de responsabilidade e atenção do aluno como também oferecem a possibilidade de os pais se engajarem no processo de aprendizagem.

Aqui no Brasil, há o mestrado e o doutorado em Informática na Educação da UFRGS, que pesquisa sobre novos métodos pedagógicos com as TICs (Tecnologias da Informação e da Comunicação). A USP também tem um pós semelhante. Aqui, a coisa anda bem atrasada, pelas informações que tenho sobre o comportamento arredio da maioria de nossos pobres professores conservadores e semianalfabetos. Mas em São Paulo, há projetos como o Educarede financiado pela Telefonica e coordenado por uma pessoa incrível, a profª Sônia Bertocchi. O Instituto Claro também investe muito nisso. Mas lá. E o que mais chama a atenção é a iniciativa isolada de milhares de professores espalhados pelo Nordeste.

Imagina este país com banda (verdadeiramente) larga gratuita e estável para todos!

Pra terminar: o estímulo à leitura para os nativos digitais pode passar pelo mesmo que ocorre comigo…

- Por não ser nenhum devorador de romances ou de poesias, por mais que leia, sempre gostei de reportagens, de depoimentos, de biografias e de livros sobre Ciências Humanas em geral. Sabes como me interessei por ler Drácula (Bram Stocker), O Retrato de Dorian Gray, 20.000 Léguas Submarinas, Alan Quatermain, Tom Sawyer e O Médico e o Monstro?

Após assistir ao filme LIGA EXTRAORDINÁRIA. Entrei no site oficial, catei informações sobre as personagens e baixei os livros (todos antigos, de domínio público) para ler.

Isso é o que os estadunidenses Bolter e Grusin chamam de REMEDIATION (remidiação) e que alguns autores latinoamericanos chamam de MIDIATIZAÇÃO: o discurso, o espaço público, as “bibliotecas” e a criação de tudo passa por uma combinação de mídias. A produção e o consumo de todas as mídias estão conectados. A troca é solidária e contínua. As transformações são bem-vindas e o acesso é total. Não existe o “pai da criança”, pois todos acrescentam informação.

O pensamento hierárquico e autoral não tem mais vez nesta sociedade. Quem age assim, tem menos condições de preparar seus filhos para o futuro e de se inserir devidamente nesta sociedade.

[]’s,
Hélio

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Quem roubou nosso tempo de leitura?

O tempo para leitura parece cada vez mais comprimido e isto não é uma perda apenas para a literatura.

Um súbito interesse renovado por Tolstói, causado pelo filme sobre seus últimos dias, A Última Estação, fez-me lembrar que há um ano atrás eu tinha prometido a mim mesmo reler Guerra e Paz. Fazia algum tempo que eu não enfrentava um romance de grandes proporções ou, para ser mais exato, qualquer coisa publicada antes do século XX. A releitura de Guerra e Paz iria me tranquilizar: minha resistência física e disponibilidade estavam intactas. Fui até a estante e descobri a página em que deixei o marcador –  ele estava na página 55 e eu sequer podia utilizar a desculpa de ter crianças pequenas.

O fato em si não teria me assustado — afinal, é Guerra e Paz — se não fosse a existência de outros marcadores abandonados em outros livros. Eu não estava terminando nenhum deles? Como é que eu, que adorava ficção o suficiente para estudá-la, ensiná-la e escrever a repeito, me tornara tão distraído?

O mundo dos meus tempos de estudante era fundamentalmente diferente do atual. Foi apenas no final da minha graduação que um amigo me mostrou uma maravilha chamada internet (Ele: “Há sites sobre qualquer assunto, tudo pode ser encontrado!”. Eu: “O que é um site?”). Nos anos 90, havia somente quatro canais de televisão. Cada família tinha um telefone, cujo uso era consecutivo. Poucos tinham jogos eletrônicos. Então, era muito mais fácil retirar-se completamente do mundo para a grande arquitetura do romance. Agora, o leitor está sob o ataque de centenas de canais de televisão, cinema 3D, há um negócio de jogos de computador tão florescente que faz com que Hollywood os imite em seus filmes, há os iPhones, o Wifi, o YouTube, há notícias 24h, uma cultura tola da celebridade — verdadeiras ou falsas (vide BBB) — , acesso instantâneo a toda e qualquer música já registrada, temos o esporte onipresente, há caixas de DVDs com tudo o que gostamos. Os momentos de lazer que já eram preciosos foram engolidos pela lista anterior e também e-mails, torpedos, Facebook e Orkut. Quase todos as pessoas com quem eu falo dizem amar os livros, mas que simplesmente não encontram mais tempo para lê-los. Bem, eles CERTAMENTE têm tempo, só que não conseguem gastá-lo de forma diferente.

Isto tem consequências desastrosas para nossa inteligência coletiva. Estamos sitiados pela indústria de entretenimento, a qual nos estimula apenas em determinadas direções. O sedução é sonora, visual e tátil. A concentração na palavra impressa, na profundidade de um argumento ou de uma narrativa ficcional, exige  uma postura que os dependentes dos meios visuais não têm condições de atender. Seus cérebros não se fixam na leitura ou, se leem, fazem-no rapidamente para voltar logo ao plin-plin. Ora, isso é um roubo de um espaço de pensamento que deveria ser recuperado.

Obviamente, os meios de comunicação como a Internet nos oferecem enormes benefícios (você não estaria lendo isto de outra forma), mas nos empurram facilmente para coisas bem superficiais que roubam nosso tempo. Você viu Avatar? Você viu o que eles podem fazer agora? Podem me chamar de melodramático, mas estou começando a me sentir como protagonista de alguma distopia (ou antiutopia) do gênero de 1984 ou Fahrenheit 451, tendo meus pensamentos apagados e, pior, gostando disso.

A Cultura mudou rapidamente nesta década. A leitura está sob ameaça como nunca antes. “Escrever e ler é uma forma de liberdade pessoal”, disse Don DeLillo em uma carta a Jonathan Franzen, que o questionara muito tempo antes da chegada da Internet. “A literatura nos liberta dos pensamentos comuns, de possuir a mesma identidade das pessoas que vemos em torno de nós. Nós, escritores, fundamentalmente, não escrevemos para sermos heróis de alguma subcultura, mas principalmente para nos salvar, para sobrevivermos como indivíduos.” Exatamente a mesma afirmação, penso eu, descreve a condição dos leitores sérios.

Deem-me o meu Tolstói. Agora é guerra.

Traduzido mui veloz e livremente por mim. O original de Alan Bissett está aqui.

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Saramago recusa encontrar-se com o Papa em Lisboa

Enquanto um imenso grupo de baba-ovos tentar arrumar um lugarzinho no encontro que Ratzinger, o Papa Bento XVI, terá com “representantes” da cultura portuguesa, José Saramago já declinou previamente do convite. O convescote está marcado para o dia 12 de maio, no Centro Cultural de Belém. “Não temos nada para dizer um ao outro”, garantiu o escritor que recentemente se envolveu em recente polêmica com a Igreja Católica, por conta de seu romance Caim.

Saramago autografa Caim, em foto recente

Certa vez, Graham Greene pediu para ser apresentado a Augusto Pinochet, só para ter o prazer de negar-lhe o cumprimento. Seria uma grande ideia para Saramago, mas acho desaconselhável em sua idade, ainda mais que o Papa estará cercado por uma claque de perigosa de carolas.

A Igreja Católica descreve Bento XVI como um homem da cultura e um apaixonado por filosofia, que procura reunir-se com artistas e intelectuais nos países que visita. Posso imaginar o papo.

De minha parte, gostaria de entrevistar-me com São Pedro a fim de que ele me explique a temperatura dos últimos dias em Porto Alegre. Não quero falar com Deus, que é vingativo e mau caráter. São Pedro me basta. Vou escrever ao Vaticano.

Vinde a mim, vamos conversar…

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Jean-Philippe Rameau: Rondó de Les Indes Galantes

A grandiosidade dos índios de Rameau (1682-1764) neste quase ostinato. Como é bom ver o time de Minkowski animado, fazendo música.

Cantores: Magali Léger e Laurent Naouri.
Orquestra: Les Musiciens du Louvre.
Direção: Marc Minkowski

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Entre luzes e sombras

Por Francisco Viana

Em meio à chamada intelectualidade, três teses ganham corpo na medida em que se aproximam as eleições. A primeira diz respeito ao presidente Lula, com frequência acusado de tramar a implantação de um regime autoritário no país. A segunda, relacionadas à primeira, coloca em foco a ministra Dilma Rousseff, apresentada como ex-terrorista ou guerrilheira. E a terceira, que se transformou num lugar comum, está relacionada com a liberdade de imprensa que estaria sendo ameaçada. As três teses são falsas.

Vamos ao teste da realidade. Primeiro, não há sequer um átimo de autoritarismo no governo Lula. Pelo contrário, está criando condições para que o país se transforme numa grande democracia de massas, a exemplo do que aconteceu na América dos anos 20 e 30. É a participação popular que constrói a democracia, não os desígnios de um grupo de supostos iluminados. Mesmo Platão, que advogava uma república aristocrática, jamais imaginou tal contra-senso. Na sua República, os sábios se dedicavam ao bem comum. Mas quem melhor retratou a imagem de uma república mista foi o historiador Políbios ao descrever na História a explicitação dos conflitos de Roma antes da era cristã com a participação dos aristocratas, da burocracia e do povo. A Revolução Americana reeditou o modelo polibiano, fazendo da participação popular o verdadeiro espírito revolucionário. Estamos chegando atrasado em cena, mas o processo é irreversível.

A segunda tese, a Dilma guerrilheira-terrorista, é oca como um anel. A ministra Dilma não foi uma vilã, mas um dos símbolos de uma geração corajosa e generosa que dedicou os seus melhores anos a mudar o país. Foi o oxigênio que nutriu a liberdade que hoje usufruímos. Foi presa, torturada, em nome de um ideal libertário. Como o tema é tratado fora do contexto pela intelectualidade crassa, passa a impressão de que aconteceu justamente o contrário. A verdade, porém, é outra e a história está aí para demonstrar. Há por fim a questão da liberdade de imprensa. Em lugar de sufocada, está sendo cada vez mais ampliada. Por uma questão simples: a sociedade é cada vez mais livre. E se a sociedade é livre, a imprensa é livre. Não o contrário. Não existe liberdade de imprensa: a liberdade é da sociedade. Não existe um único exemplo de país onde o povo seja amordaçado e a imprensa seja livre.

Na realidade a ofensiva ultraconservadora tem uma razão de existir. Se a história da humanidade é a história da luta de classes, como diagnosticou Marx, a história brasileira é a história da luta contra os privilégios. E pode ser sintetizada, desde o alvorecer da República, nesse conflito entre uma democracia com povo participante e uma democracia com povo como mero espectador. Os países que prosperaram ao longo da história seguiram o caminho inverso do Brasil. Roma foi um exemplo florescente de República participativa. Era fruto daquilo que Políbios definou como virtù - um termo filosófico que significa a capacidade de mudar a vida. A América sempre teve esse valor maior, a participação, como alicerce. Atenas encarna a sua grandeza também na democracia, mas esta iluminou apenas um pequeno período da história e era uma democracia com escravos. No Brasil seguimos por muito tempo na contra-mão. Agora que estamos tomando o caminho certo vem o grande problema dos interesses prejudicados.

É em defesa dos privilégios do Brasil fossilizado que se que erguem as vozes roucas e os rostos ensombrecidos dos conservadores, Iagos de província. Na falta de bandeiras tentam semear o medo, pois se sentem ameaçados. Como são individualistas, antissociais, perdem acesso fácil às verbas públicas, que dilapidam, se sentem intimidados pela ascensão dos movimentos populares, temem o embate vivo e transparente pelo direito à igualdade. Estão historicamente condenados a desaparecer. Pregam no deserto. Contra a voz dos Iagos de província, há o coro polifônico da sociedade que aprova as mudanças, com índices de 8 para cada dez brasileiros. O tempo da caça as bruxas passou. Restaram apenas as suas tristes viúvas envoltas no mando opaco das trevas.

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Porque hoje é sábado, Ornella Muti e Naike Rivelli

Francesca Romana Rivelli (ou Ornella Muti) …

… começou cedo…

… e foi protagonista de (muitos) amores loucos.

Hoje é uma mamma

… que se desespera com o (bom) comportamento da filha.

Estranho, a quem a filha procura imitar? E por que brigam (ou disputam)?

É que esta, quando vê a beleza daquela…

… procura descobrir se herdou algo. Mas tudo também acontece no sentido contrário.

Quando concluem que a mãe (filha) é imbatível, fica(m) revoltadinhas…

Ornella fica mais na sua.

Experiente, sabe do que Naike Just-Do-It precisa.

Com fingido enfado, assiste,…

… a agitação de Naike.

Porém, depois, como uma qualquer mamma,…

… volta a achar a filhota um doce.

Zomba dela…

… esperando que se acalme, …

… coisa que não ocorre.

Pois algumas duplas de mãe e filha são muito complicadas.

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Alguém pode explicar esta manchete?


Retirada do Cloaca News.

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TVE. E aí, Yeda?

Conforme eu já tinha escrito neste post, a TV Brasil comprou o prédio da TVE / FM Cultura do Rio Grande do Sul. Pois agora o governo federal oferece gratuitamente à TVE que lá fique, mesmo sem pagar aluguel e sem passar a programação gratuita da TV Brasil, onde ensina a como comer criancinhas. Pô, uma baita economia. Há como recusar?

A notícia foi dada pela presidente da EBC (TV Brasil), Tereza Cruvinel, e pelo diretor jurídico da instituição, Luiz Henrique dos Anjos, durante o Fórum Social Mundial, na semana passada.

“Desejamos que a TVE continue lá, sem qualquer compromisso de fazer rede conosco”, disse a presidente da EBC. A governadora do estado, Yeda Crusius, afirmou que analisará a proposta, mas não estipulou prazo para dar resposta. Pessoalmente, acho que ela não está fazendo ânus glicosado, é que antes tem de consultar a RBS.

Aqui, a notícia completa.

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Pina Bausch e Dilma Rousseff

Ontem à noite liguei a TV e estava passando Fale com ela de Pedro Almodóvar. Não lembrava que o filme mostrava bem no seu início o Café Müller de Pina Bausch. É uma coisa estranha, nunca dei muita bola para dança, mas um dia fui assistir em Porto Alegre ao Teatro de Dança de Wuppertal, certamente por culpa da Helen. Sim, eu vi Pina Bausch. Vimos duas coreografias que tornaram-se clássicas; afinal, tanto Café Müller como A Sagração da Primavera são sempre citadas. Lembro de ter ficado hipnotizado vendo tudo aquilo, de que não tinha a mínima ideia prévia, acontecer bem na minha frente. Obviamente, a Sagração causou maior impacto — há muito mais som nela e amo Stravinsky — mas a memória parece ter valorizado muito mais o Café Müller.

Com uma trilha sonora que me pareceu à princípio livre-associação, pois toda centrada em árias desencontradas de Henry Purcel ou no silêncio, e que ganhou sentido quando chegou ao Lamento de Dido, da ópera Dido e Eneas, o Café expressa de forma fria e obsessiva nossa tristeza pela impossibilidade de maior contato humano. O palco é cheio de mesas e cadeiras vazias (mais parece a cantina de um hospício) que têm de ser insistentemente afastadas enquanto quem realmente dança erra às cegas pelo palco, inteiramente dentro do desespero da perda do amor. É algo que parece simples, com muitas repetições — um Thomas Bernhard dançado? — porém toda a movimentação de um verdadeiro Teatro de Dança em que muitas coisas aconteciam em diferentes pontos do palco, resultava em congelante emoção e medo. As repetições, lógicas em seus inícios, dissolviam-se em frenesis em sentido. O comportamento dos bailarinos é ora agressivo, ora apático. Lá em 1980, nunca imaginaria a existência de tal arte.

Pois eu e a Claudia estávamos vendo Pina quando um de nós inadvertidamente se virou na cama e pressionou um botão qualquer do controle remoto. E então o canal muda e damos de cara com Luciana Gimenez entrevistando Dilma Rousseff. Sim, claro, na RedeTV. Abaixo da imagem de ambas havia o anúncio de que Dilma ia cozinhar a seguir. Oh, God, precisávamos ver aquilo. Afinal, talvez fosse o ensaio para ela preparar uma refeição na Ana Maria Braga. Adeus Almodóvar, Pina Bausch e o Caetano (Cucurrucucu, Paloma) que apareceria depois.

E ela fez um omelete, reclamou da falta de uma Tefal, falou sem parar, disse que tinha grudado e que então agora eram ovos mexidos, provaram, estava sem sal (culpa de Luciana que mandou a ministra pôr menos), depois as duas comeram tudo até o fim, rasparam vergonhamente seus pratos — o troço ficou com ótima cara — , sem deixar nada para os famintos do auditório, que aplaudiu, Dilma disse que voltaria para fazer um bacalhau e mais aplausos. Avisou que virá com uma Tefal e com colher de pau, pois a produção do programa deixou-a com uma espátula que mais parecia uma pá de pedreiro para desgrudar a merda. (Prova de que o PT não está preparado para uma candidata mulher…) Bem, e aí o clima inicial Bausch-style já tinha ido pro saco e vim escrever este post.

Abaixo, para lembrar, um fragmento de Café Müller — muita atenção a partir dos 2min25 — e o fragmento final da Sagração de Pina Bausch.

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Na Inglaterra, fracassa suicídio coletivo homeopático

Maiores detalhes AQUI (obrigado, Ulisses)

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Calor: Batista desmaia ao vivo


Agora, está 41,6 ºC aqui em Porto Alegre…

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Calor

Hoje, saí às 7 horas para correr. Já estava 29ºC. À tarde, chegaremos aos 37 ou 38°C. Com a umidade, os meteorologistas calculam uma sensação térmica de 42ºC. E não chove ou pouco chove. A chuva permanece em São Paulo e no restante do sudeste. Nossa situação é bem melhor. Ainda podemos ir e vir, a água não incomoda. Há a bicharada. Os mosquitos estão controlados de forma ecológica aqui em casa. Plantamos umas coisinhas que os afastam. Mas há uns besouros descomunais voando por aí. São burros, entram em casa e não conseguem ir embora. Não há como negar, parece uma vingança da natureza.

Enquanto isso, a figura mais importante dos telejornais é a mocinha do tempo. E ela ultimamente tem vindo com notícias ruins, o que deve aumentar a necessidade das pessoas de se informarem. Nossa paranoia a torna popular.

Minha mãe, aos 82 anos, vai aguentando. Meus filhos voltam da praia agora à tarde — estavam com a mãe deles — e eu resolvi mudar um ar condicionado de lugar durante o fim de semana. Queria deixá-lo numa altura mais inteligente para que tivesse maior rendimento. Não quis pagar ninguém para fazê-lo, mas acabei morrendo com um serralheiro. Por exatos 4 mm a coisa não entrava no lugar.

O Grêmio joga hoje às 17h. Como estamos no horário de verão, será na verdade 16h. É simplesmente impossível que tenhamos um bom jogo. Por que marcar um jogo em Porto Alegre neste horário e não, digamos, às 19h30? Nós, o Inter, jogamos às 22h.

A cidade de Forno Alegre:

Charge: Kayser

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Previsão do Tempo: Suicídio Coletivo e Sintomas de Miolos Assados

Com sensação térmica de 45ºC. Uma barbada.

Sintomas Evidentes de Miolos de Portoalegrenses Assados:

antenatricolor Temos um compromisso marcado para dia 4 de agosto, Final da Copa do Brasil. A estréia na Copa contra o Araguaia será dia 10 de fevereiro.

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O pulso de Clint Eastwood

Eu ia escrever “a mão de Clint Eastwood”, pois sei do delicado e compreensivo tratamento do diretor para com seus atores. Pulso parece algo autoritário, mas possui a vantagem de denotar não só controle como ritmo. Fica pulso.

Foi um fim de semana cinematográfico. Eu e a Claudia nos escondemos do calor assistindo ao decepcionante Chéri, de Stephen Frears, infelizmente um diretor em queda livre — dei-lhe  nota 1 — , ao esplêndido O que nos resta de tempo — filme de Elia Suleiman sobre a questão palestina — e Invictus, mais uma demonstração do notável poder narrativo de Clint Eastwood. Depois do médio A Troca e do excelente Gran Torino, o quase octogenário diretor (31 de maio de 1930) volta com um torpedo emocional que fez o escritor Francisco José Viegas dizer:

Acho que só tinha vertido uma lágrima por causa de… (…) Invictus devia ser proibido por esse motivo. Uma pessoa desfaz-se, comove-se, esquece.

A pessoa que estava a meu lado chorou bastante e em diferentes momentos. Eu senti vontade, mas não saiu. Além do mais, já tinha feito bastante disso em As Pontes de Madison e em Um Mundo Perfeito. Sabia que Clint poderia vir buscar minha lágrimas novamente. Como escreveu Luiz Carlos Merten, não deve ser difícil encontrar defeitos no filme, porém é mais gratificante permitir-se viajar na catarse e nas qualidades de Invictus. A história é conhecida nossa e dos argentinos: em 1970 e 1978, nossas seleções nacionais de futebol foram utilizadas como fator de união nacional. Porém o subtexto que percorreu nossas conquistas sul-americanas foi a tortura, os porões e o sofrimento, bem diferente do subtexto antirracista do filme. A história é real e aconteceu na África do Sul, mas é tipicamente americana. A vontade de um contra a incompreensão da sociedade.

Nelson Mandela, recém eleito presidente, tem de unir o país a fim de que ele não caia em mais uma das rotineiras guerras civis da região. Deve ter montado várias estratégias e Invictus foca-se na mais barulhenta delas: a tentativa de tornar o país vencedor da Copa do Mundo de rugby de 1995. O rugby é importante para os sul-africanos e a Copa seria em casa. Você acha que rugby é o esporte mais baixo na escala humana? Olha, eu também acho mais ou menos isso, porém o que você não pode ignorar é o poder de mobilização que o esporte tem e sua capacidade de servir como representação de um país ou grupo de pessoas. O gênero de espetáculos produzidos nos estádios possui maior variação de humores e participação do que qualquer outro. A disposição para amar ou odiar o time ou amar e odiar a si mesmo é absoluta. Mandela compreendeu a importância de unir o país em torno de um time de brancos que todos determinavam como um fracasso, tornando-o popular e seu representante legítimo.

As atuações de Morgan Freeman e Matt Damon estão no nível habitual conseguido pelo silencioso e calmo diretor que apenas diz OK, start anytime, cut, thank you e let`s do it again, please (no máximo 3 vezes), ou seja, estão muito próximas do nível máximo de suas carreiras. São personagens difíceis, ambos com complicada vida familiar e uma missão maior. Mas nada, nada disso seria útil se não houvesse o impecável ritmo narrativo a fazer com que os 134 minutos de Invictus passassem como se fosse meia hora.

Ah, se é piegas? Claro, fora de dúvida! Parece resolver todos os problemas de ressentimento criados pelo apartheid? Sim, mas e daí? Vá lá ver se não é um filme cheio de humanidade, quero ver se você não perdoará Clint na hora.

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Tchékhov - 150 anos

Na última sexta-feira, 29 de janeiro, comemorou-se os 150 anos de nascimento de Anton Pavlovich Tchékhov. Eu sabia da data, mas talvez a morte de J. D. Salinger tenha me atrapalhado e deixei-a passar em branco. Hoje, seus biógrafos sempre citam a viagem à Sacalina como o verdadeiro divisor de águas entre o Tchékhov leve e o pesado, o brincalhão e o sério e — por que não dizer? — o sadio e o doente. O que faz uma pessoa de saúde não muito boa sair de Moscou a 21 de abril, atravessar toda a Sibéria até o mar do Japão, para chegar a Aleksandrovsk (na ilha de Sacalina) somente no dia 11 de julho? Estes quase três meses de viagem quase acabaram com a saúde do escritor. Apesar disso, ficou cinco meses na ilha de Sacalina, entrevistando 10.000 pessoas entre moradores e detentos — explico: Sacalina servia, assim como regiões da Sibéria, como local de desterro para criminosos, comuns ou “políticos”. Dentre estes, havia um grande amigo seu, Vladimir Korolenko. Voltou por Vladivostok e ainda foi ao Sri Lanka, no sul da Índia. A 8 de Dezembro regressou a Moscou. Sim, este ano, li uma biografia de Tchékhov e as datas já não fechavam muito bem. As versões para sua morte também não fecham. A esposa contou assim; o médico, assado; até Raymond Carver escreveu sua versão. Em comum, apenas o fato do escritor agonizante ter pedido uma champanhe.

Suas origens são humildes, o pai era um servo que conseguiu comprar a liberdade. Nasceu pobre e morreu rico, principalmente em função das peças teatrais. Foi uma pessoa extraordinariamente ativa e solidária. Era médico — exerceu a profissão por uma década — , escreveu imensa obra, desenvolveu campanhas de prevenção à disseminação do cólera, financiou pessoalmente a construção de escolas em aldeias, não gostava muito de intelectuais passadistas (apesar de admirar Tolstói) e ensinou a como escrever um conto através de técnicas até hoje repassadas pelas “oficinas literárias”. Tudo isso em apenas 44 anos, quando morreu de tuberculose.

No ano passado, revi A Gaivota e não vou resistir a copiar a bela capa da última edição brasileira, com o escritor ao centro e sua mulher Olga Knipper à direita.

Em 2004, escrevi o texto a seguir em homenagem aos 100 anos de morte de Tchékhov:

Quando era menor, meu filho Bernardo às vezes perguntava: “Pai, qual é o teu escritor preferido?”. Minha resposta era que meu escritor preferido eram uns 100 caras. Quando ele insistia citava algo por volta de 10. Quem? Acho que Cervantes, Dostoiévski, Balzac, Kafka, George Eliot, Machado, Döblin, Stendhal, Virginia Woolf, Sterne, Thomas Mann, Tchekhov, mais ou menos isto. Mas, se meu inquisidor fosse implacabilíssimo como Fernando Monteiro em suas listas (vocês deveriam ler a RASCUNHO, repito!) e me ordenasse escolher um e somente um, eu - talvez estranhamente - escolheria Anton Pavlovitch Tchekhov.

Acho que gosto se discute sim. Em meu caso com Tchekhov, creio saber parcialmente de onde vem meu fascínio por suas histórias e peças de teatro. Estou consciente de algumas coisas que aprovo nele: o realismo, a clareza, o humor, a leveza, a abordagem compreensiva dos personagens, a pouca ênfase a coisas que outros escreveriam cheios de exclamações (ele parece dizer: não te ajudarei, descubra sozinho o que há de importante aqui), a imaginação para criar cenas e situações significantes, uma visão um pouco diferente do amor - o qual é visto sem muitas ilusões - e a total falta de preconceitos que o permite transitar por toda a sociedade russa do século XIX. Talvez ele não fale a todos da forma como fala a mim. Sei que Dostoiévski, Mann, Cervantes, etc. são melhores, porém insisto: Tchekhov é o meu escolhido. É também uma questão de convivência agradável, preferimos ficar com alguém cuja presença e essência nos seja amiga.

Era o verão de 1978, tinha 20 anos e passava férias na casa de minha irmã, que fazia pós-graduação no Rio de Janeiro. Lembro do dia: manhã chuvosa, temperatura amena, não ia dar praia. Voltei para a cama e peguei O Beijo e Outras Histórias. Pensava que, tendo lido quase todos os livros de Dostoiévski, Tolstói, Gogol e Turguênev traduzidos na época, me restava conhecer aquele Tchekhov. Amava os russos e, naqueles anos, também os soviéticos… Então, comecei a ler O Beijo - uma boa história - indo depois para o conto da cachorrinha Kaschtanka. Gostei. Almocei no centro e, quando passeava pela Cinelândia, resolvi entrar na Biblioteca Nacional e pedir para ver o que eles tinham de meu novo escritor. Eles trouxeram poucos livros, mas, dentre eles, estava O Beijo.

Peguei o livro e continuei a lê-lo na BN. Passei a uma história que estava no final do livro: Enfermaria Nº 6. Em minha vida, li-a umas 4 vezes, a última deve fazer uns 15 anos. Talvez tenha sido minha maior experiência literária. Fiquei estupefato com a quantidade de humanidade que me era repassada, com a economia do autor, com a poesia condensada de sua prosa. Ali não havia teses a defender, nem grande enredo, mas havia uma sinceridade, uma nitidez nos personagens que me causou enorme impressão. Continuei a ler as histórias de trás para diante e conheci a irônica Uma História Enfadonha, na qual descobri que Tchekhov podia criar diálogos tão bons quanto os de Jane Austen. Voltei para a casa diferente.

Tchekhov viveu apenas 44 anos e era médico. Até os 26 anos, publicou 300 histórias em jornais russos, quase todas cômicas. Vivendo em Moscou, era obscuro. Porém, sem que soubesse, estava tornando-se famoso em São Petersburgo, onde tinha numerosos leitores. Isto perdurou até o dia em que recebeu uma carta do severíssimo crítico Grigorovitch:

“Os atributos variados de seu indiscutível talento, a verdade de suas análises psicológicas, a maestria de suas descrições (…) deram-me a convicção de que está destinado a criar obras admiráveis e verdadeiramente artísticas. E o senhor se tornará culpado de um grande pecado moral, se não corresponder a estas esperanças. O que lhe falta é estima por este talento, tão raramente conhecido por um ser humano. Pare de escrever depressa demais…”

Tchekhov mudou e, sem perder a graça e a leveza mozartiana de seu texto, tornou-se realista. O novo estilo custou-lhe críticas violentas, que o acusavam de “mau gosto” e de utilizar “detalhes sujos e grosseiros”. Ele respondeu: “Pensar que a literatura tem como finalidade descobrir as pérolas e mostrá-las livres de qualquer impureza, equivale a rejeitá-la.”

Rubens Figueiredo, tradutor e prefaciador de O Assassinato e outras histórias faz outras observações sobre Tchekhov:

“No ambiente intelectual russo, o debate só parecia fazer sentido quando tomava formas extremadas. A fama crescente de Tchekhov e a expectativa em torno de seus textos obrigaram-no a defender-se dos mal-entendidos, cada vez mais numerosos.”

“Os leitores russos se haviam acostumado a tomar os escritores como campeões de credos políticos e religiosos mas, no caso de Tchekhov, esbarravam em textos obstinadamente inconclusivos. Mais grave ainda, suas entrelinhas pareciam indicar que tanto as grandes sínteses intelectuais quanto os padrões de pensamento herdados pelos costumes serviam antes para encobrir a realidade.”

“O desconcertante é que Tchekhov consegue munir sua prosa de uma sutileza capaz de sugerir outras camadas de experiência, como se a realidade nunca se esgotasse.”

E, mais desconcertante: “Para Tchekhov, a religião era moralmente indiferente. Ou seja, a crença, seus conceitos, seus símbolos e rituais eram ineficazes para deter a crueldade e o egoísmo, mas tampouco constituíam suas causas.”

Tchekhov: “Não cabe ao escritor a solução de problemas como Deus ou o pessimismo; seu trabalho consiste em registrar quem, em que circunstâncias, disse ou pensou sobre Deus e o pessimismo.”

Há muitos livros de Tchekhov que indicaria. Tenho 22 na minha frente. Como ele era contista, novelista e dramaturgo, há muitas coletâneas e, nelas, muitos contos e novelas repetidas. Vamos começar pelas peças teatrais: acho que As Três Irmãs, A Gaivota, Tio Vânia e O Jardim das Cerejeiras são tão extraordinárias que prescindem dos atores e podem ser lidas como uma novela de diálogos. A novela Enfermaria Nº6 está em vários livros, assim como os contos Inimigos, A Dama do Cachorrinho e um conto clássico que os tradutores deveriam se reunir a fim de estabelecer um nome, pois ele pode se chamar Queridinha aqui, O Coração de Olenka ali, Dô-doce (?) acolá, assim como Amorzinho ou qualquer outra coisa.

Os melhores livros são as duas traduções de Bóris Schnaidermann:

- A Dama do Cachorrinho e outros contos. Editora 34. 1999 Trad. de Bóris Schnaidermann ou
- Contos. Civilização Brasileira. 1959.
(O segundo é o mesmo livro reeditado e revisado por Schnaidermann 40 anos depois. Mas quem encontrar a edição de 59 num sebo pode comprá-lo de olhos fechados. As duas versões são espetaculares.)

Outros livros que indico:
- Contos e Novelas. Edições Ráduga (Moscou). 1987. Um primor de tradução para o português realizada por Andrei Melnikov.
- O Assassinato e outras histórias. Cosac & Naify. 2002. Trad. de Rubens Figueiredo.
- O Beijo e outras histórias. Círculo do Livro. 1978. Trad. de Bóris Schnaidermann.
- A Enfermaria Nº 6 e outros contos. Editorial Verbo. 1972. Trad. de Maria Luísa Anahory.
- Os mais brilhantes contos de Tchekhov. Edições de Ouro. 1978. Trad. de Tatiana Belinky.
- Histórias Imortais. Cultrix. 1959. Trad.de Tatiana Belinky.

Filmes:
Há dois esplêndidos filmes de Nikita Mikhálkov baseados “em qualquer coisa de Tchekhov” (palavras do próprio diretor e roteirista): Peça Inacabada para Piano Mecânico (1977) e o famoso Olhos Negros (1987) com Marcello Mastroianni detonando no papel principal atrás da Dama do Cachorrinho.

Em vida, Anton Tchekhov já era conhecido, respeitado e até popular, mas não era uma celebridade. Após sua morte, Tolstoi disse: “Creio que Tchekhov criou novas - absolutamente novas - formas de literatura que não encontrei em parte alguma. Deixando de lado falsas modéstias, afirmo que Tchekhov está muito acima de mim”.

Naquele tempo, os contemporâneos não deram atenção a esta opinião. Pensavam que o conde já idoso estava a superestimar Anton Tchekhov, atribuindo-lhe características acima das que merecia. Passados cem anos, vemos agora que Tolstoi não estava tão equivocado. Atualmente, na Rússia, Anton Tchekhov encontra-se ao lado dos grandes clássicos: Púchkin, Gogol, Dostoiévski e Tolstói. E, como dramaturgo, está entre os mais célebres e montados autores mundiais.

“Anton Pavlovitch Tchekhov sentou-se na cama e de maneira significativa disse, em voz alta e em alemão: ´Ich sterbe´ - estou morrendo. Depois, segurou o copo, voltou-se para mim, sorriu seu maravilhoso sorriso e disse: ´Faz muito tempo que não bebo champanhe´. Bebeu todo o copo, estendeu-se em silêncio e, instantes depois, calou-se para sempre. E a pavorosa calma da noite foi apenas alterada por um estampido terrível: a rolha da garrafa não terminada voou longe.”
Olga Knipper, esposa de Anton Tchekhov.

Faz pouco mais de 100 anos que o fato narrado acima ocorreu. Tchekhov faleceu em 15 de julho de 1904 em Badenweiler, Alemanha.

Adendo: E-mail de Fernando Monteiro:

Você tem toda a razão sobre Tchekov: ele tem uma “redondez”, uma satisfação tão total e plena do que esperamos encontrar num escritor… que mereceria, sim, ser o escolhido, entre todos, como o preferido de um leitor super-exigente.

Das histórias de AT, eu gosto especialmente de “A Estepe”, uma novela relativamente curta e genial, que narra a viagem de uma criança como uma metáfora (a novela toda) da viagem que atravessamos sem saber porque e para quê.

Assim é que o meninozinho russo (o próprio Anton, é claro) viaja — e a travessia da estepe vasta, com todos os seus incidentes, se torna o núcleo mesmo da impressão estranha da novela, como naquele filme (Olhos Negros) de Michalkov, em que Mastroianni recorda “as névoas da Rússia num passeio de carruagem, na infância, há muito tempo”…

Creio até que Nikita Michalkov faz uma alusão mais ou menos direta à novela, porque o argumento de “Olchie Chiorne” foi criado a partir da fusão duas narrativas clássicas de AT.
Para mim, Tchekov é o Machado de Assis da pátria de Dostoiévsky.

Bom final de semana!
Fernando

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Inacreditável (e bom) arranjo da Suíte Gogol, de Alfred Schnittke

Não há mais dúvidas que Alfred Schnittke foi um gênio e aqui temos o Scherzo Quartet (”scherzo” significa “brincadeira”, em italiano) interpretando um resumo da engraçadíssima Suíte, a maior das homenagens que poderia receber o mais cômico dos escritores ao lado de Jonathan Swift: Nikolai Gogol. Sendo um emaranhado sensacional de citações, o original para orquestra prevê inclusive que parte dos músicos bebam vodka escondidos do regente, durante a execução. Irreverência pouca é bobagem.

Para não deixá-los só no blá-blá-blá, aqui está o trecho em que os músicos se embebedam. Há uma indicação na partitura para que os músicos tomem vodka e não outra bebida qualquer (a fim de que conseguirem uma interpretação dentro do espírito da música…). O concerto mostrado aconteceu no Conservatório de Kazan.

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