Só a indiferença é livre. O que tem caráter distintivo nunca é livre; traz a marca do próprio selo; é condicionado e comprometido.
THOMAS MANN
Ironicamente, no dia de Finados, o RS Urgente publicou um post sobre o silêncio da intelectualidade gaúcha. O post era mais do que simples, apenas reproduzia um comentário do leitor Franklin Cunha:
O que mais nos impressiona nessa cortina de silêncio em torno das denúncias de crimes do atual governo, é a absoluta ausência de manifestações da intelectualidade gaúcha. Descrevem o pôr-do-sol, os ipês floridos, a feira do livro, as festas gauchescas, preocupam-se com os monumentos públicos, como se todas essas “monstruosidades” geradas no Piratini, não existissem. Não podemos acreditar que todos eles foram cooptados pelas benesses do poder.
Sim, simples, mas provocativo na medida certa e mais do que suficiente para gerar um bom debate. Quero começar definindo o que entendo por intelectualidade. São os moços dos cadernos de cultura, são as pequenas celebridades que gostam de tentar reflexões inteligentes sobre costumes, política internacional, escritores, arte em geral, sociologia, antropologia e o diabo. São aqueles que acorrem aos jornais para dar sua interpretação dos fatos, os que preveem, os oráculos que escrevem hoje para poderem dizer “eu avisei” amanhã. E são os bons escritores, ensaístas e articulistas que produzem essa coisa intangível que chamamos cultura ou conhecimento. Ou seja, minha concepção da palavra é pré-Gramsci e pré-antiga.
Há tais pessoas por aqui e em todo lugar.
Em primeiro lugar, esta intelectualidade parece traumatizada com um fato que começou em meados do século XX e que hoje mostra cada vez mais seus resultados: a pouca importância que os intelectuais passaram a ter. Em tempos nem tão remotos, escritores e artistas eram convidados pelo poder para participarem não apenas de regabofes mas para grudarem suas grifes neles. Apenas para seguir a senda de palavras iniciadas por “gr”, diria que Graham Greene, por exemplo, era habitué de vários primeiros-ministros ingleses e presidentes americanos quando o encontro era internacional. Greene foi uma das últimas celebridades do gênero “escritor famoso que trata de política internacional em seus livros”. Lembro que, certa vez, pediu para ser apresentado a Augusto Pinochet apenas para ter o prazer de negar-lhe um cumprimento. Foi o que fez. Só que hoje há um problema: a literatura fracassou e não cria mais celebridades, sejam planetárias, sejam no microcosmo brasileiro. A importância do escritor e do artista diminuiu.
Em segundo lugar, Swift era um gênio e sempre teve razão ao chamar de Laputa a terra dos intelectuais em Gulliver. Em geral, sempre estivemos — e já que as ofensas serão duras, passo a dar a cara ao tapa –- à venda. Greene não, porém muitos outros sim. Olhem para o Brasil. E olhem para o habitual. Adoro Drummond, mas o que ele fazia com Capanema durante o Estado Novo? Ah, compreendo, eram amigos de infância… Deixo a palavra ao poeta Fernando Monteiro, que não habita Laputa.
Nossos parnasianos, condoreiros, simbolistas,
modernistas, praxistas e taxidermistas
da poesia do pantanal depois da lama seca
descobrem de novo o Brasil de Cabral,
trabalham para Capanema e não faz mal,
tomam remédio para dor de cabeça
e vão dormir em Pasárgada,
onde são mais que amigos do rei
de espadas dos jogos de cartas
marcadas da carreira literária
do acadêmico Getúlio Vargas
Os poetas brasileiros não morrem em revoluções.
Quando elas acontecem, os bardos nacionais
preferem segurar os empregos.
Na Revolução de 30 não morreu um só Dante
de Cascadura para contar como é descer ao inferno.
Todos eles aspiram ao céu de palmas abertas
soltando as batatas quentes na corrida
dos mil metros para ocupar ministérios,
secretarias da cultura e bibliotecas nacionais
reservadas para os insistentes em Poesia Sempre
(palmas para eles com uma só mão no ar rarefeito
da imortalidade a cacete, chá e simpatia
de casca dos bóias-quentes).
(Trecho do poema Vi uma foto de Anna Akhmátova)
Não é um exagero. É a razão. Estamos sempre prontos a aderir, mesmo que seja a um Getúlio Vargas. Exemplos há aos montes. Lembram quem foi o autor de Zélia, uma paixão? Pois é, foi o incensado autor de Encontro Marcado, Fernando Sabino.
Mas voltemos ao Rio Grande. O que quero dizer é que a LIC (Lei de Incentivo à Cultura) tornaram os autores ainda mais dependentes e putos. Quem falará mal de Yeda Crusius se sabe que ela toma chás com bolachas acompanhada da Secretária da Cultura Mônica Leal? Tal fato serve de pretexto para quem já não tem lá muita disposição para tratar de temas espinhosos. Não posso protestar porque meu projeto está nas mãos deles… Aqui temos um raro e débil protesto onde a governadora é tratada com um respeito, digamos, patético.
Secretária Mônica Leal (acima, à direita): a cavalgadura em ato cultural
Em terceiro lugar, há a pequena grande imprensa gaúcha. Não há nenhuma disposição nela para abraçar vozes dissonantes. Obviamente, tal fato não libera nossos gloriosos produtores de cultura de seus compromissos éticos, mas afirmo que a maioria deles conta com a divulgação de seus trabalhos por nosso órgão maior, nem que este muitas vezes acabe apontando para seus rabos. A justificativa aqui é a de que, Pô, fiz uma catilinária contra a situação, mas eles jogaram no lixo… O onipresente e sorridente Luís Augusto Fischer, que trabalhou Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre durante a gestão de Tarso Genro, parece estar desobrigado de qualquer comentário sobre o Estado e lembro apenas de ter lido uns muxoxos quando vimos o acervo de Erico Verissimo seguir para o Rio de Janeiro.
Nada justifica o silêncio. A única exceção que vejo é vergonhosa para a esquerda gaúcha. Trata-se do professor e escritor Juremir Machado da Silva. Juremir é uma das pessoas mais afastadas da esquerda que conheço, porém é o único ter coragem de ironizar o estado das coisas. O resto fica tipo assim, entende?







on Nov 5th, 2009 at 9:53 am
Cai a noite sobre Palomas
Participara, no já longínquo 2005, de uma série de debates sobre “O Silêncio dos Intelectuais”; ficara estarrecido quando um célebre escritor português retirou seu apoio à Cuba com as palavras “Até aqui, cheguei”, mais adiante não poderia, diante da execução de outros opoentes ao regime; acompanhara, nos últimos anos, a capitulação, nada lenta, dos governos tidos à esquerda, rumando à realpolitik. Sentia-se cansado, carente de uma boa aposentadoria, quando sua filha Teresa chegou em casa em estado lastimável, depois de três dias de sumiço, fato corriqueiro na vida de ambos, ela divorciada, ele viúvo, morando juntos em uma boa casa, mas no Bom Retiro. Sintomático, ele sorriria, se dessa vez não estivesse, de fato, preocupado. O que foi, Teresita? Entre soluços, ela respondeu:
- O Juremir, pai, foi o Juremir!
- Quem é esse Juremir?
- Ele escreveu mais um artigo contra o governo, mas contra o nosso governo!
- Qual? O federal?
- Não, pai! O estadual!
Que ele soubesse, o governo estadual não era o deles, embora o federal tampouco o fosse, mas…
- E o que tem isso demais?
- Tem que ele me atingiu diretamente, citou meu nome, deu informações que apenas eu poderia saber, e fez isso depois de tudo o que fez comigo e…
- E o que ele fez contigo?
- Ora, pai, o que ele poderia ter feito comigo? Mas o pior é ter me usado para isso pai, e como é que eu vou justificar isso para o governo?
- Mas você…
- Pai, você não sabe que eu trabalho para o governo?
Não, não sabia. Mais aquela. Bem que a solução Houellebecq caberia aqui, mas… não. Não neste país, neste estado, talvez nem mesmo nesta casa. Pensando bem, não neste mundo. Melhor ficar calado.
[Reply]
rômulo arbo menna Reply:
November 5th, 2009 at 4:59 pm
modo inocência:
foi coincidência ou tu, marcos, q, pelo q sei, não é gaúcho, conhece o juremir o bastante pra saber q ele é apaixonado pelos franceses e q o “da hora” é exatamente o Houellebecq?
Vi neste inverno uma palestra do Juremir sobre o estruturalismo q me encantou, diga-se.
[Reply]
rômulo arbo menna Reply:
November 5th, 2009 at 5:01 pm
acabo de lembrar q o juremir TRADUZIU o Houellebecq (eu leio rullebéq; alguém me acode)
[Reply]
marcos nunes Reply:
November 6th, 2009 at 3:03 pm
Caro Rômulo,
O título do miniconto ou croniqueta é o mesmo de um livro do Juremir, que li antes de Partículas Elementares (este de Houellebecq), mas que “se inspira” muuuiiiito nele. O dito gaúcho também é publicado no Rio em resenhas e ensaios, segue a linha estruturalista versão 0.1 câmbio à direita e é um daqueles intelectuais que, devidamente colonizados, se coloca à proa mas é solenemente ignorado pela hegemonia uspiana, o que poderia até dar a ele algum crédito mas… num dá não. Numa coisa ele se parece com muitos que conhecemos: naqueles reclamos do Brasil vanguarda do atraso, país de analfabetos, etc., essas coisas cheias de razão tanto quanto um copo cheio pela metade está repleto. Enfim, o humor dos seres superiores sobre a caipirada nativa, no que ele bem se parece com Efeagagá. Replicaria: isso não é um intelectual, é uma salada de pepino com morango. Pois é.
[Reply]
rômulo arbo menna Reply:
November 5th, 2009 at 6:30 pm
ia indicar o blog do marcos, aí vi q o texto foi escrito pela RACHEL nunes e q no perfil do blog aparece uma certa ISABEL. sabendo nada de nada indico mesmo assim
http://rf-nunes.zip.net/arch2009-10-25_2009-10-31.html#2009_10-28_08_18_18-130430729-0
[Reply]
charlles campos Reply:
November 5th, 2009 at 7:19 pm
arbo, eu também acompanho o blog da Rachel. O Isabel está quebrado, confira: é Vila Isabel!
[Reply]
charlles campos Reply:
November 5th, 2009 at 7:23 pm
Gostei do post dela sobre Lew Welch, poeta beatnik que desconhecia. Sorte do Marcos ter alguém deste naipe para conversar. Não reclamo, me apaixonei pra valer pela minha mulher quando descobri que, além de linda, havia escrito uma monografia primorosa comparando “O Ensaio sobre a cegueira”, do Saramago, com “Os cus de judas”, do Lobo Antunes.
on Nov 5th, 2009 at 10:15 am
Como não sou gaucho, nem intelectual, nada tenho onde meter minha colher, mas fica aqui o registro, quase nada a ver com o tema específico, não fosse a citação do “case” Fernando Sabino / Zélia. Pelo menos a lição, que esse equívoco deixou está valendo. Li ontem que dois dos mais renomados escritores de “biografias” recusaram o convite para escrever a da Dilma Rousseff, que evidentemente assínará o livro. Razões dadas: falta de tempo ou prazo exíguo! Enquanto isso a caravana passa!
[Reply]
on Nov 5th, 2009 at 10:48 am
Excelente texto, Milton, e que humor! Me faz acionar toda a reserva crítica e moral que me resta depositada calmamente no meu interior, e que a aplico em minha vida familiar e profissional, mas não na civil.
Se me visse agora, sentado diante o monitor, com um sorriso indelével no rosto, pensaria: como ele é calmo e centrado, pronto para o envelhecimento saudável, como seus olhos são amigáveis por detrás dos óculos. Mas se enganaria. Estou tendo um ataque, isso sim, mais um! Estou implodindo pela raiva! Acontece quando o árduo treinamento de um pouco de conformismo cotidiano é balançado pelo reconhecimento de um igual, que mostra a mesma medida cansativa da velha indignação. Como um touro no meio de um rebanho pacificado, seguindo disciplinadamente para o cocho, cabisbaixo e os testículos crescendo gloriosamente na lenta produção que lhe dá sentido, que quando vê o búfalo do outro lado da cerca disparando campo a cima, másculo e voraz, se deixa percorrer por um apiedante frisson da antiga natureza, o esperma se suspende por um instante e os olhos do touro vasculham em torno, aventureiros. Por um minuto apenas, ou menos, e tudo volta a ser como era antes, em sua ordem inolvidável, em sua sistemática de obedecer os ganhos alheios, em sua espermiogênese de garantir o prosseguimento em seus filhos dessa escravidão de bem alimentados.
Me lembro de Adorno_ o modelo de referência de um intelectual messiânico que poderia nos garantir a salvação_ dizendo que por detrás da usual sombra de sorriso cotidiano, do olhar absorto do homem que volta à tarde para casa, está o histórico de rebelião suprimida, a sede por justiça em todo seus complexos matizes convertida em resignação. Não parece exagero? O lado dramático do Charlles, esse leitor com a cabeça repleta da dissonância da literatura da revolta do século XX. Será que ele não sabe que pode parecer teatro seu assobiinho desafinado, a sua imitação dessa sinfonia da indignação que mesmo nos grandes já soava disparatada, marciana, antinatural? O que há de errado no Brasil de hoje, com pessoas privilegiadas que podem escrever suas opiniões em plenas 10:18 da manhã de uma quinta-feira efervescente, com o que há de melhor em informática, com todas as palavras de uma média compreensível da boa formação acadêmica?
O fato é que querem nos fazer acreditar nesse Brasil panglossiano, como o professor Pangloss, personagem de Voltaire, que julgava-se viver no melhor dos mundos. Pangloss é a representação de nossa intelectualidade, um pensador raso, para o qual lhe basta comodamente suas aquisições pessoais de cultura e tecnologia, a sua boa posição na poltrona para assistir ao espetáculo do ano que vem da copa mundial e das eleições, onde se cumprirá a promessa sediciosa de 365 de ausência de tédio. Ano onde os marqueteiros terão vez, distribuindo dinheiro em todos os blogs para que se faça a benesse de dourar a pílula e louvar a Dilma; em que mais uma vez haverá carnaval, prostituição autorizada com glamour, turismo estrangeiro pedófilo acobertado por uma visão míope oficial; haverá a loucura patriótica para colocar os multimilionários nacionais, proficientes em línguas dos países que os adotaram, mais uma vez no panteão dos campeões universais do futebol, e o povo todo bufando de alegria inenarrável por ser o representante da magnificência da bola, melhor que os argentinos, lá na frente Galvão Bueno (argh!) com os seios de fora conduzindo a multidão para a liberdade de nosso iluminismo efêmero de povo escolhido.
No Brasil impera um enorme silêncio interno que por mais que eu pense que não pode historicamente durar, me surpreendo. Não há imprensa séria e descompromissada com o poder dos bancos e das mega-empresas e do governo. Parei de ler a Veja, a Carta já não a tolero há meses, e na última Piauí, o oásis foi finalmente maculado pela propaganda da Petrobrás. A televisão, que quando solteiro não a tinha, das vezes em que caio no ocaso de espia-la vejo o ensinamento salutar de que é o mais perfeito retrato sociológico do brasileiro. Ontem mesmo me assustei ao ver Roberto Justus, com seu sorriso franco e puro como um filme de terror, apresentando um programa de auditório, simulando dráculamente simpatia e popularidade. Como somos banais e ridículos! Como esse marasmo hiperatrofiado além de todos os limites nos torna apiedantes, com nosso código penal, nossos juros, nossas escolas, nosso judiciário. Você tem Yeda, nós aqui temos Marconi Perillo, Alcides Rodrigues, Iris Rezende, a família Caiado. A ninguém apraz tentar virar a pedra para mostrar os vermes polpudos e centenários que existem embaixo; todos querem a umidade lasciva, a sombra confortável, a aproximação esperançosa.
O Brasil não existe!
[Reply]
Ramiro Conceição Reply:
November 5th, 2009 at 1:36 pm
Vou na tua cola, Charlles…
A GRUTA DA EVOLUÇÃO
by Ramiro Conceição
É pena que o frio invadiu nossos cardumes
e os peixes-voadores não se mostram mais
porque foram capturados pela burrice total.
Com licença…
Com urgência,
preciso deixar
esses rascunhos
na gruta ― da Evolução!
NÁUSEA
by Ramiro Conceição
Ao Mirante, Nelson Moraes
Ah…,
quantos ‘intelecas’ e suas cascatas,
quantos édipos, lacaios e jocastas,
quantos jumentos transatlânticos,
quanta atriz-modêlo-vila-madalênica,
quanto jornaleco pra limpar a bunda,
quanto jornalista metido a besta,
quanto publicitário com cabresto,
quanto big-brother-globetrotter de cabiçulinha,
quanta celebridade com altura de um bueiro,
quanta fashion week, quanta frescura no chiqueiro
(Por quê? Pra quê? Por quê? Pra quê?
Pra nada!).
REINO DAS FALCATRUAS
by Ramiro Conceição
“Falcatrua (Falcatrua-Brasiliensis): ave de rapina; abundante no Brasil.
De acordo com o IBAMA, as falcatruas vivem atualmente um processo de explosão populacional pois não possuem um predador natural. Em bando, as falcatruas são hábeis na arte de matar. Porém, quando sozinhas, parecem pacíficos passarinhos.”
No reino das falcatruas,
lá, onde o demo atua, latem
homenagem e subserviência,
mediocridade e cons… ciência!
No reino das falcatruas,
foi baleada a literatura pelo bando da auto-ajuda,
a música seqüestrada pela quadrilha dos grunhidos,
o público se tornou privado
e o privado: privada pública!
No reino das falcatruas:
eu tô; tá tu; tão vocês!
Lá, impera o inglês.
Porém… xingar?
Só em português!
[Reply]
charlles campos Reply:
November 5th, 2009 at 3:10 pm
hahahaha! Me lembrou o “corrupto” na gaiola, animal ultra-sensível e cheio de manha, do tempo em que o Jô Soares era interessante.
[Reply]
rômulo arbo menna Reply:
November 5th, 2009 at 5:05 pm
ri um monte do o reino das falcatruas
Ramiro Conceição Reply:
November 5th, 2009 at 5:27 pm
Grato, Arbo!
on Nov 5th, 2009 at 12:28 pm
Estou cheio de trabalho nessa semana, mas este post exige muita atenção.
Excelente Milton. Direto na ferida. Não poderia esperar menos.
Mas nós não somos assim, ao menos hoje em dia, tão impávidos quanto nossos hinos e canções nativistas sugerem, não é? O rabo de quase todos está preso, como você apontou. Grande parte da “intelectualidade” regional, incapaz de projetar-se no centro do país (onde rola a grana e os holofotes), precisa pagar suas contas. Quando não depende de projetos culturais com financiamento público, ao menos espera ter um artigo publicado, de vez em quando, nos tablóides estaduais, para ajudar no orçamento doméstico. E esses tablóides você bem sabe de que lado estão.
Mesmo o Juremir já levou tanta cacetada no lombo (devido a seu célebre artigo sobre Veríssimo na ZH, e depois uma reportagem sobre o Uruguai, publicada na IstoÉ), que já perdeu boa parte de sua iluminada ferocidade. Mas, espertamente, deixou de cair na armadilha fácil que seria tornar-se um “Diogo Mainar” dos pampas - e foi assim que, para marcar posição, acabou ocupando o espaço vazio da esquerda, ao menos em questões pontuais.
A intelectualidade (detenho-me na sua ótima definição do termo) não está apenas “traumatizada” com a pouca importância que os intelectuais passaram a ter. Está, antes de tudo, endividada. Só para nos determos no âmbito literário, temos de considerar que o brasileiro lê, em média 4,7 livros por ano contra 10 nos EUA ou na França. As universidades federais pagam mal seus professores (não é a toa que o Juremir, ainda essa semana, publicou um artigo elogiando a PUCRS, na qual deve ser bem remunerado) e os jornalistas notoriamente comem o pão que o diabo amassou, mesmo quando trabalham para a imprensa marrom.
Uma última nota: o pessoal da Casa de Cinema (http://www.casacinepoa.com.br/blog) parece mais independente em suas manifestações. Alguma coisa é sempre salva. Mais ou menos.
[Reply]
charlles campos Reply:
November 5th, 2009 at 3:25 pm
Seria interessante encontrar um desses brasileiros padrões inventados pelos institutos de pesquisa. Que belo repertório de assuntos teria um integrante da raça que lê 4,7 livros por ano. Eu mesmo nunca vi um! A lista telefônica(?), o livro de registros do encontro de condôminos, Zibia Gasparetto? O novo catálogo de compras da Novo Mundo?
Como nem tudo se perde para sempre, Victor, há um único texto em que o Mainá (com Mainá, adubando dá!) soa interessante. Em contramão com a linha editorial da Veja, em que colocou na capa a prosperidade da cidade country de Barretos, ele escreve, na edição seguinte, que tal riqueza econômica é algo assim como sustentada em calcanhares de barro. Se cada pessoa de Barretos, ele vaticina, se dedicasse a ler um livro por mês, (mas não um livro qualquer, mas Thomas Mann ou Nélida Piñon)_ continua ele_, em cinco anos a prosperidade seria realmente mensurável na cidade. Não é difícil não concordar.
[Reply]
Ricardo Branco Reply:
November 5th, 2009 at 8:50 pm
$4,7 livros por ano? Donde veio esta estatística tão boa?
Branco
[Reply]
Victor Hugo Lisboa Reply:
November 6th, 2009 at 8:57 am
google it
[Reply]
on Nov 5th, 2009 at 12:28 pm
ô Milton, corrige a tag aí em cima. Valeu!
[Reply]
Victor Hugo Lisboa Reply:
November 5th, 2009 at 3:11 pm
Diogo Mainar não é só absoluto desinteresse em escrever corretamente o nome desse cidadão. Tenho um colega de trabalho chamado Mainar, e é isso que dá escrever comentários durante o expediente.
[Reply]
on Nov 5th, 2009 at 4:00 pm
Só mais uma coisinha! tava tentando pegar o eco que me produziu certa parte do texto do Milton. Parece que já havia lido algo assim! daí me lembrei das cartas do Norman Mailer, publicadas em duas edições da Piauí. O autor americano diz praticamente o mesmo sobre a falta de expressividade da intelectualidade atual, bem diferente da de seu tempo, em que derrubava governos. pensar que Vinhas da Ira fez o governo estadunidense rever a política sobre assentamento de terra, e cada lançamento dos romances de Faulkner, mesmo que pouco lidos, fazia a elite sulista encolher (mesmo que um pouquinho) o lombo diante a repercussão entre os meios culturais. Aqui, Ronaldo Caiado fez recolher livro de importante biógrafo, a coisa de três anos, por ter uma frase…uma frasesinha só! onde era mencionado o seu sacropanta nome de família. E o conceito de intelectual? Said o estende a todos acadêmicos sinceros. Nossos intelectuais são aqueles da Uniban, que saíram em massa gritando “puta! puta! puta!” para uma aluna, até expulsá-la porta afora, por ela estar usando um vestido vermelho. É como disse um verdadeiro intelectual britânico: “Estávamos diante o abismo, quando resolvemos dar um passo à frente.”
[Reply]
Victor Hugo Lisboa Reply:
November 5th, 2009 at 4:14 pm
Ou, como diria um outro lá das gringas, “aos melhores falta toda convicção, enquanto os piores estão cheios de intensidade apaixonada”.
[Reply]
on Nov 5th, 2009 at 9:02 pm
Milton,
quando manifesto de intelectuais é encabeçado por Leticia Spiller e, se no momento la grande penseur é a Ivete Sangalo, eu preocupo-me com o próprio conceito. Tomara que eu não seja considerado intelectual, já que não escapo disto no sentido Gramsciano.
O de silêncio dos intelectuais tornou-se corrente com a assunção do PT ao poder e, principalmente, com o mensalão. Gente como o Rolim, que se insurgiu foi praticamente expulsa. Muitos adquiriram “estranhos hábitos de companheiro de viagem” (BH Levy ao ouvir as explicações de Sartre), outros encastelaram-se num silêncio covarde.
Agora ninguém sem interesses quer comprometer-se, para não ser cobrado posteriormente.
Aliás, parodiando o Millôr, para mim intelectual é de oposição o resto é bodegueiro.
Branco
[Reply]
on Nov 5th, 2009 at 11:40 pm
Brincadeira maldosa hoje na Feira do Livro…
- A Yeda tá autografando o que?
Boletim de Ocorrência.
[Reply]
gugaalayon Reply:
November 6th, 2009 at 10:38 am
ahahaha
[Reply]
on Nov 6th, 2009 at 7:06 am
What are costs for scoring G&T tests?
[Reply]
on Nov 6th, 2009 at 11:59 am
Excelente post.
A coisa está mesmo de impressionar. Queria ter tempo de escrever mais aqui sobre isso.
[Reply]
on Nov 6th, 2009 at 12:54 pm
Inicialmente quero cumprimentá-lo pelos excelentes posts.
Tempos de incerteza, diria mesmo duríssimos, em que vivemos. E para você não se sentir tão sozinho, diria que suas palavras ecoam pelo chão de ferro de Minas! E como são reais!
Acompanho en passant a “crise” gaúcha; penalizado por não entender e aceitar como isso poderia acontecer no Rio Grande do Sul a quem tanto admiro.
Olhando o panorama geral do país, e ousaria dizer, do planeta, o que percebemos: medo(?), covardia, cumplicidade, desinteresse.
Tempos de incertezas, quando “liberdade, justiça, razão e verdade”(A. Novaes), que seriam matérias ou materiais dos intelectuais, perdem (perderam?) legitimidade e valor.
Sem pretender ser “professoral”, há uma abordagem do tema que recomendaria a quem ainda não leu e que poderia enriquecer o debate. Trata-se do livro “O Silêncio dos Intelectuais”, organizado pelo Adauto Novaes, pela Cia das Letras.
No mais é continuar prá ver onde vai dar essa ladeira!
[Reply]
on Nov 7th, 2009 at 2:34 am
não sai da minha cabeça a ideia de que tudo isso pode ser uma grande e intrincada estratégia.
[Reply]
on Nov 7th, 2009 at 2:35 am
a quem interessa a queda da governadora, hoje?
a quem interessa colocar um cadáver já em estado de putrefação na fogueira?
se for queimado, virará cinzas e será esquecido.
se continuar fedendo até 2010, o mal-estar poderá ser insuportável para quem for grudado nele.
[Reply]