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Machado de Assis e Cees Nooteboom

O grande escritor holandês Cees Nooteboom — eterno candidato ao Nobel que estará na próxima Flip — é um viajante. Não, não no sentido de ser um cara desligado da realidade, é um viajante mesmo, desses que vão de um país a outro sem parar. Então, ele resolveu escrever o livro Tumbas, onde revela sua busca por 82 túmulos de escritores e filósofos em todos os continentes. Dentre os 82 estava, é claro, o de Machado de Assis.

Então Nooteboom (seu nome diz-se “seis notebom”) chegou ao cemitério de São João Batista em Botafogo. Estava acompanhado de sua esposa e do diretor do Instituto Goethe do Rio. Queria encontrar o túmulo de Machado de Assis. Dirigiu-se à administração. O atendente disse-lhe que daquele jeito não ia dar, precisava do primeiro nome.

– Sem o primeiro nome do presunto não dá — invento eu.

Cees e sua mulher não lembravam do primeiro nome e voltaram à carga.

– Mas o senhor não conhece o grande escritor Machado de Assis, o maior do Brasil? Ele está enterrado aqui!

– Sei não… — fantasio novamente o homem do cemitério.

Demorou, mas acabaram encontrando. Assim começa o mais novo livro de Nooteboom. Depois, a mulher do autor, fotógrafa, registrou o túmulo. Céus, é mínimo, é um quase nada! Sou quase indiferente aos cemitérios, mas, cá para nós, Machado merecia um túmulo à altura. Ironia, recebeu o túmulo que receberia o Conselheiro Aires. Algo para ser esquecido.

Um dia, meu amigo Dario Bestetti disse uma frase inesquecível:

– Milton, o lugar correto de se guardar os vinhos é na memória.

Dario, acho que tua frase servirá também para o maior escritor brasileiro. O local onde estão guardadas as sobras (evito a palavra “restos”, por demais respeitosa num contexto de descaso) de Machado de Assis — que mereceria estar no centro de uma praça cheia de loucos, adúlteros, jovens inseguros, empregados do governo e senhoras concupiscentes, todos passeando sob seu irônico busto, talvez de cabeça baixa, com um leve sorriso nos lábios — é uma bosta.

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11 Comentários on “Machado de Assis e Cees Nooteboom”

  1. #1 Dario B. Bestetti
    on Mar 11th, 2010 at 1:20 pm

    Pô, fiquei lisonjeado ….

    [Reply]

    miltonribeiro Reply:

    Pffff… Bom jogo logo mais!

    [Reply]

  2. #2 Cláudio Costa
    on Mar 11th, 2010 at 2:06 pm

    Nunca me interessara em saber onde estaria e como seria o túmulo do Machado. Entretanto, ao saber do descaso dedicado ao maior escritor brasileiro, fico triste, muito triste. Se tratamos assim figuras como M. de Assis, imagine como somos, nós mesmos, desconsiderados.

    [Reply]

    miltonribeiro Reply:

    Assino embaixo e por todos os lados. É Machado, não?

    [Reply]

    Carlos Eduardo da Maia Reply:

    Machado é atemporal. Ele continua atual e assim vai ser. E quando se lê Machado a vida da gente dá um puf, é automaticamente remetida para a Lapa, para Santa Tereza, para o velho Botafogo, a rua de Matacavalos. Mas não acho que Machado esteja esquecido. A casa de Machado, no centro do Riiio, ao lado da ABL, é um sítio muito interessante de visitar. Lá estão sua mesa, sua estante, seus livros e seus óculos.

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  3. #3 Caminhante
    on Mar 11th, 2010 at 2:13 pm

    Eu achei uma maneira muito interessante de começar um livro…

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    miltonribeiro Reply:

    O velho Nooteboom sabe como começar um…

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  4. #4 charlles campos
    on Mar 11th, 2010 at 5:47 pm

    Ainda não foi lançado no brasil, não é? (pelo que pude ver no google). Tudo do Cees que foi lançado por aqui, o tenho e já li. Quando li “dia de finados”, um dos mais impactantes e intelectualmente ternos livro que me passou pelas mãos, eu arvorava a defesa de que esse holandês era o maior autor vivo. Não manteve a densidade, infelizmente (e olha que nem precisou ganhar o Nobel para amaciar), com “Paraíso Perdido”, uma novela nos altos padrões de Cees, mas que, assim como a mim, deve ter deixado os seus outros admiradores com as expectativas protêicas fracassadas. Uma das personagens de Dia de Finados, uma intelectual dissidente que mora na Alemanha, diz uma frase memorável: “Bebo contra a História.” Esse romance, como já salientei aqui diversas vezes, é como um magnífico concerto para violoncelo, cheio de amizade, carisma sobre-humano, e um mudo, de tão profundo, observar dos fantasmas inumeráveis que vagam deixando passos indistintos pela neve da Alemanha_ todos cheios de uma amargura que não se desgasta, incansáveis à espera de uma compensação imposível, que o herói do livro imagina afagar no final da narrativa. Como saul Bellow disse, os maiores livros são esotéricos.

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    miltonribeiro Reply:

    Vou ter que ler este livro. Tua justificativa foi altamente poética!

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  5. #5 gugaalayon
    on Mar 12th, 2010 at 7:27 am

    Ele morreu?
    Não li nada no twitter

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    miltonribeiro Reply:

    Sim, Machado morreu. Deu até no Jornal Nacional.

    [Reply]

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